terça-feira, maio 03, 2005
DICAS DE LEITURA DO nominimo
Sobre como dinheiro público pode escorrer por entidades sem fins lucrativos. O caso é no Rio de Janeiro, mas a adusp (www.adusp.org.br) vem estudando o tema faz tempo:
A Fesp é uma festa de Xico Vargas
A Censura sabia o que fazia Sensacional texto de Ricardo Calil, sobre livro que deve ser igualmente ótimo, sobre pesquisa hiper-pertinente sobre a atuação da censura contra o cinema brasileiro. Imperdível.
Ronda cinematográfica: filmecos Mario Sergio Conti comenta em breves notas suas últimas idas ao cinema
Tchau, Romário. Alô, Kerlon de Roberto Benevides, a profusão de craques brasileira encontra no drible da foca de Kerlon, os brasileiros mais uma vez reinventam o jogo...
Bom Dia, Arte Sou fã de Ricardo Calil, que aqui escreve sobre o filme Bom dia, noite , que ainda quero ver.
TERCEIRIZANDO A CRÍTICA
A matéria também não encampa o contraditório e o interesse que residem no fato do país ser um dos maiores fornecedores de petróleo para os EUA, mesmo hoje, no governo Chávez.
Quem precisa de Veja?
2/5/2005
Em matéria de capa, revista acusa Chávez de ameaçar estabilidade na América Latina, repetindo recado de Condoleezza Rice. Veja, que exaltou o golpe de abril de 2002 contra Chávez, tenta firmar-se como o maior panfleto da direita brasileira.
Veja se autoproclama uma “revista semanal de informação”. Para obter sucesso, conta sempre com a falta de informação e de memória alheias. Veja, não nos esqueçamos, apoiou Collor no início. Em dezembro de 1994, chegou a classificar, em matéria de capa, o Plano Real como “O novo milagre brasileiro”. Para atacar o MST, não teve dúvidas em adulterar uma foto do líder do Movimento, João Pedro Stédile, ou de falsear informações sobre a luta pela terra.
Atravessado na garganta de Veja está o presidente da Venezuela, Hugo Chávez Frías. Os motivos são basicamente dois. Um é – chamemos as coisas pelos nomes – ideológico. Veja soma-se ao ódio de fundo – pelos nomes, pelos nomes! – classista, racista e político devotado ao mandatário venezuelano pela mídia de seu país, que o sataniza ao ponto de concluir tratar-se de um débil mental. A pauta é ditada pela imprensa estadunidense mais conservadora, tendo o Washington Post à frente. Veja acha que Chávez não é democrático. Até aí, é um direito de quem manda na publicação.
Estragou uma capa
Mas o ódio de Veja tem por base um outro elemento, mais concreto. Chávez estragou uma capa que deve ter dado muita satisfação à alta direção da empresa da família Civita. Recordemos a chamada de capa do número 1.747, datada de 17 de abril de 2002. A edição fechava na noite de sexta-feira, 12 de abril. Menos de 20 horas antes, a oposição a Chávez – composta por membros do empresariado, em aliança com o alto comando das forças armadas, setores da burocracia petroleira e a Casa Branca – consumara um golpe que o retirara do palácio de Miraflores, acabando com as instituições democráticas do país. Veja não teve dúvidas. Sapecou na capa a chamada “A queda do presidente fanfarrão”.
Na página 45, a revista sentenciava:
"Chávez se considerava um Robin Hood bolivariano. Era mais um bufão, que entretinha o povão com programas de televisão em que se portava mais como animador de auditório do que como presidente. Sua queda foi recebida como boa notícia no mundo: melhorou o índice risco-país da Venezuela, a bolsa de Caracas disparou (alta de 8%) e o preço internacional do petróleo caiu 9%".
Todos sabem o resto da história. Quando chegou às bancas, na manhã de domingo, a edição estava para lá de velha. Milhões de venezuelanos nas ruas e uma inédita divisão do exército abortaram o golpe. Veja sequer pediu desculpas aos leitores pela barriga, na semana seguinte. Se os fatos não se ajustam à manchete, danem-se os fatos, parece ser a máxima da direção de Veja. Imperdoável a petulância do mestiço em teimar voltar ao poder e estragar uma manchete do maior semanário brasileiro do mundo!
Condinha paz e amor
Agora, Veja volta à carga na edição desta semana, aliás, primorosa no que revela de sua linha editorial. A capa é eloqüente: “Quem precisa de um novo Fidel?” Encimada pela expressão carrancuda do líder venezuelano, a manchete logo emenda: “Com milícias, censura, intervenção em países vizinhos e briga com os EUA, Hugo Chávez está fazendo da Venezuela uma nova Cuba”.
A entrevista das páginas amarelas é com a secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice. O tom é todo Condinha paz e amor, como se vê pelo trecho seguinte: “Mesmo quando a missão inclui assuntos mais comezinhos, como as encrencas de Hugo Chávez na Venezuela e as hesitações brasileiras na Alca, Condi tem se saído extraordinariamente bem na Operação Simpatia. Sua espetacular história de sucesso a precede: nascida no coração racista da América, entrou na faculdade aos 15 anos, formou-se aos 19, doutorou-se com 26. Pianista, especialista em relações internacionais e fluente em russo, chegou a reitora de Stanford e, embora negue quase que diariamente, o caminho da Casa Branca é uma possibilidade no horizonte”.
Não há encrencas COM Hugo Chávez, mas encrencas DE Hugo Chávez, de acordo com o olho da entrevista. O pingue-pongue pauta a edição. Mas a grande arte está lá pelo meio da revista, sob o espirituoso título “O clone do totalitarismo”. Em seis páginas ficamos sabendo, entre outras coisas, o que se segue. Alguns comentários são colocados abaixo de cada trecho.
"Chávez tem um objetivo claro: quer se tornar o grande líder de massas da América Latina’, disse à Veja o historiador venezuelano Manuel Caballero, o mais respeitado do país”. A revista conta com o desconhecimento dos leitores para fazer afirmações peremptórias. Manuel Caballero, com toda sua longa trajetória acadêmica, só é respeitado na Venezuela pelos monopólios privados da mídia e pelas elites econômicas. Tornou-se um destemperado e folclórico opositor de Chávez, a que volta e meia a imprensa estrangeira recorre em busca de frases bombásticas.
"Chávez dá dinheiro e apoio político e técnico para movimentos de esquerda latino-americanos".Sequer a CIA consegue levantar uma única evidência de que tal fato esteja acontecendo.
"Venezuela substituiu a União Soviética como patrocinadora do regime castrista em Cuba, fornecendo petróleo e abastecendo o país de bens de consumo industrializados, tudo a preço simbólico ou a fundo perdido".Não há preço simbólico ou fundo perdido. Há um acordo, firmado em 30 de outubro de 2000, pelo qual a Venezuela fornece a Cuba 53 milhões de barris diários de petróleo – metade do que a Ilha consome – a preços de mercado, com prazo de carência de até 15 anos. Além de pagar, Cuba compensa as condições de financiamento mediante o fornecimento de serviços médicos, educacionais e esportivos, além de remédios, vacina e açúcar. A íntegra do acordo pode ser lida em: http://www.asambleanacional.gov.ve/ns2/leyes.asp?id=175 Seria bom aos elementos responsáveis pelos textos de Veja darem uma lida antes de mentirem aos seus leitores.
"O presidente venezuelano interfere nos assuntos internos de outros países de várias maneiras".Quem interfere em assuntos de outros países é o governo dos Estados Unidos. Só Veja, ao que parece, não se dá conta disso.
"Hugo Chávez adotou um virulento discurso antiamericano".Qualquer pessoa medianamente informada sabe que isso não é verdade. Em várias oportunidades, Chávez afirmou que não tem nada contra os Estados Unidos, mas se opõe ao governo do país e suas práticas imperiais. A verdade é que Chávez tem um discurso antiimperialista.
"Ele diz a toda hora que os americanos querem matá-lo ou estão prontos para invadir o país. Até agora, de real, o que se viu foi o governo de George W. Bush evitar respostas às provocações”.Até agora o que de real se viu foi o governo Bush patrocinar, entre outras coisas, um golpe de estado. Uma recomendação aos redatores de Veja: encomendem o recém-lançado livro "El código Chávez – decifrando la intervención de los EE.UU. en Venezuela", da advogada estadunidense Eva Golinger (Fondo Editorial Question, 336 páginas). O volume é resultado de uma exautiva garimpagem em documentos oficiais do Departamento de Estado e do Departamento de Defesa, obtidos sob o amparo da Lei de Liberdade de Informação (Freedom Information Act). Em suas páginas, a autora desvenda – com fartas provas e evidências - as relações entre a entidade conhecida por NED (National Endowment for Democracy) e a oposição venezuelana, incluindo fornecimento de dinheiro e uso de chantagem política e estímulo à violência. É ressaltado ali que o embaixador estadunidense, Charles Shapiro, foi o primeiro a se reunir com o líder do golpe de 2002, Pedro Carmona. E, entre muito mais, o livro detalha – com os números de matrícula – as embarcações e aviões dos EUA que entraram em águas territoriais venezuelanas, sem autorização, durante o golpe.
"Uma das preocupações americanas decorre de compras de armas em quantidade muito acima do que seria razoável num país cujo Exército tem apenas 35.000 homens. De janeiro para cá, a Venezuela comprou mais de 7 bilhões de dólares em aviões de combate, helicópteros, navios e sistemas de radares. O pacote russo inclui 100.000 fuzis AK-47".A Venezuela tem investido nas forças armadas principalmente para defender suas fronteiras e para isso os aviões Super Tucanos são ideais. O que tem acontecido na divisa com a Colômbia é uma intensa provocação à Venezuela. As forças armadas do país presidido por Alvaro Uribe são dirigidas, armadas e instruídas pelos EUA, através do Plano Colômbia, - informação omitida por Veja - em seu combate à guerrilha das Farc, que controla 40% do país. A movimentação é clara: empurrar contingentes das Farc para o território venezuelano, na tentativa de se acusar Chávez de acobertar a guerrilha. E, claro, de cumplicidade com o terrorismo, qualificativo utilizado pela Casa Branca para classificar as Farc.
"Em 1958, um pacto garantiu estabilidade política até os anos 90, um dos mais longos períodos de democracia do continente".Ninguém sério acredita nisso. Em 1958, as elites políticas e econômicas selaram o Pacto de Puntofijo, para criar uma alternância de poder de fachada, enquanto submetia a esquerda e as forças populares a uma duríssima repressão.
A matéria tem muito mais. É impossível dizer onde está a pior parte. É um panfleto, bem ao gosto do que faz na Venezuela a imprensa local. Como ela, Veja não trafega pelos caminhos do apego à realidade. Sua matéria prima é a ficção e a lorota pura e simples. É parte do novo coro golpista que se avoluma contra um governo democraticamente eleito, tendo como repetidores outros órgãos da imprensa brasileira.
Que os Civita façam isso, é papel deles. Mais uma vez – chamando as coisas pelo nome – é papel de sua classe social. A matéria é assinada por Diogo Schelp, Ruth Costas e José Eduardo Barella. São contratados e fazem o que o patrão manda. Servir bem para servir sempre, parece ser o lema. Talvez acreditem no que escrevam. Mas não deixa de ser deprimente a existência de gente que tope assinar uma peça totalmente editorializada e anti-jornalística, apenas para manter seus proventos no fim do mês.
É certo que a vida anda difícil, mas tem um pessoal que pega pesado.
Gilberto Maringoni, jornalista e cartunista da Agência Carta Maior, é autor de “A Venezuela que se inventa – poder, petróleo e intriga nos tempos de Chávez” (Editora Fundação Perseu Abramo) e observador, a convite do CNE, no processo do referendo revogatório na Venezuela.
domingo, maio 01, 2005
VEJA: CONDOLEZZAS PARA CHAVES
CORREÇÃO JOGA 10..
Campanha que exalta a 10 faz troça do "homem-Copa"
Muito boa mesmo, mostrando a superioridade da reportagem aos comentários do blog. As respostas sem muito sentido da profissional de marketing da Nike mostram como hoje em dia, profissionalmente, em comunicação, assessoria de imprensa e marketing se diz hoje qualquer coisa para ocupar espaço.
terça-feira, abril 26, 2005
DECLARAÇÕES DE BRINCADEIRA - PARTE 2
DECLARAÇÕES DE BRINCADEIRA - PARTE 1
Dá raiva ouvir isso de um sujeito que durante a campanha repetia constatemente a necessidade de se reduzir a taxa de juros, e que um país nunca iria para frente enquanto rendesse mais a especulação do que o investimento na produção. Uma vez eleito, abdicou da sua responsabilidade e discurso de campanha, orgulhosamente sentando a bunda, e deixando as decisões de juros para o pequeno conclave do Copom, que o mantém na alturas a taxa básica (e por conseqüência, o câmbio sobrevalorizado), sendo a brasileira, de longe, a maior taxa de juros reais do mundo.
Lula na sua declaração finge que o cidadão que está tomando um empréstimo tem o "poder", de como "consumidor" reduzir o que?, meio ponto percentual de um empréstimo? Enquanto seu governo se abdica de decidir e governar a política econômica. Brincadeira.
domingo, abril 24, 2005
CIÚMES DA MUSA
PS: Uma das maiores alegrias da minha curta carreira de jornalista foi ter recebido um telefonema em um bar de hotel, de Paulinho da Viola avisando que não poderia vir e pedindo para marcar a entrevista para o dia seguinte. É muito legal atender o telefone e ouvir "Oi, aqui é o Paulinho da Viola", como se dizer seu nome, com aquela voz bela e calma, não fosse um pleonasmo do conteúdo perante a forma.
JESUS É... TERAPIA OCUPACIONAL?
Participe você também. A proposta é simples. Qual o espaço extremo da liberdade de expressão? A cabine de banheiro públicos, em rodoviárias, lanchonetes, escolas e casas noturnas. Então, cade vez que visitar estes espaços ocupados pela expressão mais pura do que há dentro do ser humano, ao invés de escrever obscenidade, suje a parede simplesmente com Jesus é...(complete). O objetivo é deixar as pessoas completarem livremente, do seu intímo intestinal, o que Jesus é para ela neste momento tão reflexivo da nossa fisiologia. Se é 10, se é tudo, se é o senhor, se é bugrino, se é cagão, se faz boquete etc...Ou mesmo se o pessoal pára com a esculhambação das outras mensagem no entorno, em respeito ao mais famoso judeu-palestino de todos os tempos.
Transformar o banheiro em uma pequena catedral, onde cada um pode confessar seus segredos mais fedidos, cumprir a penitência com papel higiênico e ainda se livrar de tudo simplesmente dando a descarga.
Depois de algum tempo, dias, semanas, meses, como em um exame de fezes, voltar ao mesmo banheiro e recolher, através de foto digital, a amostra da resposta à indagação digna de deixar todos no reservado com a mesma pose do pensador de Rodin...
Eu vou esperar o material deste exame, que pode ser mandado para o meu e-mail. Claro que como não sou bobo e sei que todos tem mais o que fazer, vou esperar sentado. No vaso mesmo.
Microsoft + Monsanto = PT livre, mas transgênico?
A pergunta é válida, porque em ambos os casos tratam-se:
- de setores estratégicos para a economia nacional, com grande impacto na balança de pagamentos (software via pagamento de royalties e exportações de soja sem pagamento de royalties)
- Da apropriação pelo Brasil do conhecimento destes dois setores (genética e software)
- Do princípio da propriedade intelectual X conhecimento. No caso da Microsoft o governo defende a liberdade de fluxo do saber. No da Monsanto, que este, e a soja derivada dele, seja propriedade patenteada da empresa. Através de royalties, é como se a Monsanto se tornasse sócia, dona de uma porcentagem, de toda a produção do país. Além de gerar, com o tempo, um verdadeiro monopólio no setor de sementes e a depêndencia dos produtores. Isso para ficar apenas na discussão econômica, sem falar da ambiental e possíveis riscos à saúde.
Tenho minhas opiniões heterodoxas baseadas em boatos inseguros sobre o porque da amizade PT-Monsanto. Mas no fundo, só levanto este assunto para ver como na era do governo Lula-campo majoritário, a coerência do PT, a sua linha, virou uma imensa bunda de nenê, donde ninguém sabe o que vai sair, e quais são as instâncias de decisão. Obscuridades que geram “posições” inflexíveis, mas que ninguém sabe onde foram engendradas.
Quatro influentes deputados do partido (Luizinho, José Eduardo Martins Cardozo, Jorge Bittar e Nelson Pellegrino), além de José Carlos Aleluia (PFL-BA) e Júlio Semeghini (PSDB-SP), alegremente, vão a Washington, patrocinados pela Microsoft, ver palestras do homem mais rico do mundo, Bill Gates, e do notório mentiroso em sessão da ONU sobre armas no Iraque e ex-secretário de Estado dos Estados Unidos, Colin Powell. Dizem que não é lobby. Se não for turismo é o que? Pura perda de tempo dos deputados? Pura generosidade da Microsoft?
É lógico que o PT tem ainda um papel a esquerda do centro na política brasileira. Vide São Paulo, onde o partido entrou fundo na lógica nociva das alianças, e ainda assim está a esquerda do PSDB. Mas o PT não é mais esquerda em si mesmo. Não o é mais como partido de fato, coerente. Isso depende de que grupo, pessoa, discurso e política na prática do PT você se refere.Em muitos casos, como em relação às leis trabalhistas, sua posição está, na prática, à direita do que a do discurso do PTB (a ver se na hora H da reforma trabalhista, o fisiológico partido não vai mudar de lado, se não está só cacifando seu passe).
Por um lado, isso gera uma confusão ideológica no cenário político, uma tremenda perda de clareza e orientação para a esquerdas, que tem facilitado tanto uma redução das demandas por mudanças sociais no Brasil quanto à continuação da implantação da agenda de medidas e reformas conservadoras (das micro como liberalização do câmbio e taxa de juros, focalização dos gastos sociais, as macro como autonomia do Banco Central, trabalhista, sindical etc..).
Por outro, cria uma saudável desconfiança e força uma maior maturidade política. Uma volta à atenção ao público acima de uma ilusão redentora partidária(PT)/personalista (Lula). E que a atuação neste público, pela igualdade social e democracia, tem que se pautar pelo próprio, concretamente, tanto com uma visão de fundo quanto com uma prática cotidiana.
Para o PT, minha impressão é que fica um círculo vicioso. Quanto mais o partido perde a identidade e o apoio da esquerda (o que é mantido é na base de acenos de esperança, cooptação e chantagem com a ameaça da direita) mais depende de esvaziar a disputa política, embaralhando e reduzindo as candidaturas adversárias através de alianças cada vez mais amplas. E neste processo mais perde a identidade e distancia a política dos eleitores. Deixa de ser um partido comprometido no combate ao conservadorismo. E cada vez menos cumpre a justificativa da política de alianças: de que esta seria o PT impondo sua agenda aos fisiológicos, que não teriam uma. Na verdade, cada vez menos o PT tem um projeto político claro, o que retorna a questão do começo do texto, e o que permite que a natureza das alianças gire cada vez mais em torno da própria fisiologia. (a ocupação do estado como um valor em si mesmo). Acaba virando, no extremo, linha auxiliar para as próprias oligarquias locais, sendo elas que se aliam ao PT, não vice-versa. Veja o caso Romero Jucá, nesta matéria do Valor Econômico: Acordo para reeleição de Lula esbarra no PT. É o rabo abanando o cachorro, o meio do poder perdendo seus objetivos. Como não é nunca a direita que vai dar o suporte político na prova dos nove o PT (mas sim uma rasteira...), eu acho que a reeleição de Lula ainda é muito possível, mas duvido que o PT vença a eleição em 2010.
sexta-feira, abril 22, 2005
PANTÂNO E O CINEMA COMO LUPA E CASSETETE
E é mais do que isso. Chamar de metáfora da crise do nosso vizinho é fácil demais, como bem aponta Ricardo Calil em excelente crítica no nominimo (A ‘buena onda’ argentina 7/04/2005). Permite que digamos "não é conosco". Quando muitas das cenas devem tocar na memória de qualquer latino-americano de classe média, ainda mais falida, entre férias, empregados e negação da realidade (e do trabalho).
Além de ser apenas uma afirmação clichê, porque muito mais do que metáfora, o filme observa com lupa seus personagens. Usa para tanto o recurso mais específico e forte do cinema: o plano. É nele, nas escolhas de ângulo e proximidade, deslizam atuações, cenografia, diálogos e trama, com muito mais força.
Com a combinação destes elementos é um filme de abrangência impressionante que trata das relações familiares, raciais, de classe na américa latina, catolicismo (uma crítica poderosa em dias de novo (velho) papa), de gênero (machismo, homossexualismo), desejo e repressões. O filme não "fala" disso. Ele mostra isso. Articulando na construção das cenas, vários personagens e histórias. Com profundidade nos sulcos do rosto, na atuação física, no figurino etc...De forma tranquila, sem discurso, é o filme que melhor executa, que o faz na síntese da imagem uma das melhores características comuns da buena onda argentina: a relação firme, mas não forçada, nem esquemática, entre a história dos personagens e o contexto social que os cerca. É um dos filmes mais políticos que eu já vi.
O cinema é ilusão por natureza. Mas através desta ilusão, O Pântano alcança um realismo tal, tão violento no ranger das cadeiras arrastadas, que necessita de uma coragem, inteligência e técnica tremenda para serem atingidos. Lucrecia Martel surge como um nome que ainda deve produzir muita coisa boa para o cinema, porque ninguém acerta um alvo deste por acaso. Tanto que Pedro Alomodóvar saiu para produzir seu segundo filme. E se você ainda não viu, saia, alugue o DVD e vá ver o seu primeiro.
PS: O melhor da linguagem cinematográfica demanda atenção de quem assiste, o que é sempre um risco na tela pequena e fora da sala de cinema, com telefone, parentes etc...Proteja-se!
quarta-feira, abril 20, 2005
TEORIA E PRÁTICA DO CASO
Duas notícias que batem neste fim-de-tarde parecem estar bem mais próximas que a borboleta e o vendaval. O Comitê de Política Monetária (Copom), eleva mais uma vez a taxa de juros do Brasil, que já era a mais alta do mundo, cinco pontos percentuais a mais que a da Turquia, a segunda colocada. Subiu 0,25%, movimento detectado/estimulado por alguns agentes do sistema financeiro, como o Unibanco. Enquanto isso no Equador, Lucio Gutierrez, que chegou ao poder em uma "revolução indígena" de esquerda, cai pelas mãos da mesma esquerda, após traí-la e aprofundar as políticas neoliberais na economia dolarizada do país.
As borboletas, daqui e do Equador, segue tentando sobreviver ao vendaval...
sábado, abril 16, 2005
GRAFITE ESCREVE CERTO POR LINHAS RETAS
- que a atitude do Grafite foi o máximo, tipo 0,7. Concordo que ele deve sofre inquérito e Grafite estava certo em fazer a queixa
- que os jornais Argentinos como o Olé tem que ter noção da realidade e do limite das coisas- que patético o Agnelo Queiroz, ministro dos Esportes, meter o executivo no caso para tirar uma casquinha da repercusssão na mídia. Este sim quis aparecer. Espero que tenha tido a decência de ter consultado o Itamaraty antes, mas duvido
- que a assessoria de imprensa do secretário de Segurança Saulo de Castro Abreu Filho trabalhou em cima da pinta, e que a "alta cúpula de segurança", que fez ele também aparecer em cima da prisão
- que Galvão Bueno atingiu o gozo máximo e objetivo maior de sua carreira - estimular um incidente diplomático com a Argentina, pouco tempo antes de um confronto entre as seleções em Buenos Aires. Preparem-se! Se os argentinos forem espertos e quiserem dar o troco, basta acompanharem a transmissão da partida e o Galvão sairá preso do estádio...
sexta-feira, abril 15, 2005
Eu: EGO, SUPEREGO, ID e HD
Tive uma impressão de que falava de mim. O HD sou eu? – perguntei-me Eu I (não acredito em reencarnação...). Sentia-me improdutivo, o tempo rendendo menos que meus colegas, como se menos esperto e capaz. O trabalho e stress acumulando, quase a me dar um pau. Seria mesmo eu, ou a minha extensão, os meus periféricos? Onde acaba um e começa o outro.
A potência do playboy na caminhonete, do músico no amplificador, do soldado no fuzil, do apresentador nas ondas de TV, de qualquer um na amplidão positiva ou profundidade do negativo da sua conta bancária.
Meu ego no HD, minha memória, o que fiz e um tanto do que sou em RAM. Textos políticos, experiências, mensagens de começo e fim de amores. Seriam nossos softwares compatíveis? Ou tem razão e suas últimas atualizações deixaram meu modelo obsoleto e seu CD já não roda mais no meu disco rígido?
Será que no futuro teremos psicanalistas de sistema? “Conte-me mais sobre seu sistema operacional”, pergunta para nós e o laptop, no divã...
O transplante foi um sucesso. O computador passa bem, não houve problemas de rejeição ao novo HD e a memória está de volta, com uma velocidade de quando eu tinha uns 20 anos, com a experiência de 50. Sinto-me mais moço, mais vigoroso. Baixo músicas moderninhas pela web, arranjei uma nova comunidade de amigos no Orkut e coloquei uma foto toda-toda no meu Messenger. Oi, gatinha, sabia que minha conexão a cabo é banda larga? A minha esposa diz que eu estou vivendo a crise da meia idade, que antecede a minha total obsolência programada. E ironizou: acho até que você durou muito, já veio cheio de defeitos de fábrica. Deviam fazer era um recall...Ela anda muito engraçadinha.
Após uma sessão de bate-papo com um monte de gente querida que há tempos não vejo ao vivo desliguei-me, ops, desliguei o computador. E refletido na tela, vi meu próprio rosto. Pensei, sem extensões, arquivos ou conexões.
Eu sou apenas eu.
Confesso que fiquei um pouco assustado.
segunda-feira, abril 11, 2005
A TROCA NA SECRETARIA MUNICIPAL DE CULTURA
DICA DE LEIITURA
Texto interessante de Antonio Guilermo García Danglades, publicado noPlaneta Porto Alegre, sobre asmovimentações dos Estados Unidos nos bastidores diplomáticos da Organização dos Estados Americanos, entidade chave para julgar o que é "democracia" no continente, principalmente na Venezuela.
Entre ricos e milionários
O maravilhoso mundo dos serviços bancários para os muito, muito ricos, em matéria interessantíssima do Valor Econômico. Dê uma espiada pelo olho da fechadura e volte para a fila do caixa, que a coisa não é para o seu bico.
domingo, abril 10, 2005
DICAS DE LEITURA
- Mário Sérgio Conti em excelente matéria sobre o Principado de Mônaco, e como o glamour esconde lavagem de dinheiro. Uma citação excelente dela: "E porque o capitalismo, estruturalmente, precisa de válvulas de escape, de paraísos fiscais."
Rainier: príncipe do paraíso
- Matéria do New York Times, traduzida na UOL, mostra como o modelo Microsoft de desenvolvimento de software, empurrando novos "produtos" e associados à eles mais "produtos", está velho e obsoleto, comparado aos conceitos de software livre e este setor como prestador de serviço, não vendedor de produtos. Por Randall Stross: Próxima versão do Windows valerá a espera?Fiz uma matéria faz pouco tempo sobre adoção de software livre no setor público para a revista da Fundap (quando estiver no ar, coloco o link aqui...). Algumas pessoas acharam que a matéria pendeu demais para o software livre. Mas: 1) A Microsoft simplesmente ignorou as perguntas encaminhadas à sua assessoria. 2) Na apuração, de fato não achei desvantagens, mas gente que com Windows de graça disse que havia redução de custos com a migração para Linux.
- Eu não concordo em nada com Maílson da Nóbrega, representante do pior conservadorismo financeiro e político. Posto isso, acho interessante ler sua análise, porque burro ele não é, tanto na escolha da pauta quanto na defesa do seu ponto-de-vista, que é o do capital financeiro para quem sua consultoria (Tendências) trabalha. É inteligente, inclusive ao fazer neste texto o senão, e depois fugir da discussão, sobre a sustentabilidade ambiental do modelo neoliberal que defende e ao não apontar a crescente desigualdade no acesso aos bens e serviços, exploração do trabalho, incapacidade (mais desinteresse) de lidar com problemas como as epidemias de AIDS e malária e estímulo à conflitos bélicos, entre outras questões, geradas por este mesmo modelo.
Era o papa anticapitalista?
HERÓI E A TODA PODEROSA CHINA
Avaliação do governo Serra na Folha de S. Paulo
Ontem (09/04) , o Estado de S. Paulo publicou matéria sobre a proposta de renegocição da dívida de São Palo, feita pelo prefeito José Serra ao Ministro da Fazenda, Antonio Palloci. As mudanças representam uma redução de R$11 bilhões no valor da dívida. Após se dedicar sistematicamente a destruir a imagem do governo Marta, Serra parte para uma complexa disputa/negociação com o governo federal. Se a imagem de Marta realmente ficou no chão, parece-me que foi mais por "mérito" próprio da prefeita nos últimos 3 meses do seu governo (e a oposição cerrada da imprensa) . Quanto a Serra, principalmente como mostram os problemas no transporte da cidade, a má imagem de uma não significa boa avaliação do seu governo.
Dado curioso da pesquisa é a melhor avaliação entre os mais ricos. Este era a disputa real na eleição, e é isso que Serra está implantando: um governo de viés elitista (vide o conceito que ele tem de "revitalizar" o centro) para manter as diferenças e delimitar territórios na cidade, além de fustigar o PT, governo municipal passado, federal presente e qualquer um futuro, e servir de plataforma para vôos maiores de Serra.
O problema que a pesquisa Datafolha bem indica é que a prefeitura de São Paulo é um cargo "carregado", como o governo do Rio de Janeiro. Tem tanto problema, encara uma situação de caso tamanho para sua capacidade adminsitrativa, que enterra o futuro de qualquer político, mas se um dia alguém fizer um grande governo sai de lá com chance de até ser presidente.
PS:O Estado noticia também problemas do Secretário Municipal de Cultura, Emanoel Araújo, com Serra. É um dos melhoresnomes apontados pelo prefeito, e vinha tentando equilibrar os problemas de falta de recursos da pasta e negocar com a classe artística. Mais um mal sinal.
segunda-feira, novembro 29, 2004
A ESCALA HUMANA
Permita-me usar do tão falado, quando estava na faculdade, recurso do hipertexto. Primeira parada. Leia como mudou a construção do responsável pelas novas atrocidades americanas no Iraque. Como a eleição ampliou o que antes e focava como um ataque à Bush e sua cúpula, neste texto, de Emir Sader. Meu coração está em Faluja. Voltou? Até a Madonna, está vendo seu país, da Inglaterra, e de forma diferente. Madonna pede retirada de tropas americanas do Iraque
Uma amiga minha mandou algo que me comoveu muito. Veja da primeira até pelo menos a sexta página da galeria de fotos deste website. São norte-americanos, centena deles, e o site sequer consegue processar a enxurrada de imagens que chegam, pedindo desculpa ao resto do mundo pela eleição de Bush. Uns xingam quem votou nele de idiota, outros pedem “asilo”, no Canadá ou no resto do mundo.
Olhem nos seus olhos, fotos tiradas em suas casas, a maioria jovem, entre brincadeiras e olhar desoladores, um dos atos mais simpáticos de viver sociedade. Pedir desculpa. Não desculpas por serem americanos. São o que são. Pedem do que os Estados Unidos é e estar se tornando mais.
Dizem terem tentado ao máximo, feito campanha, mas não deu. Talvez o mais tocante sejam aqueles que dentro da paranóia terrorista fermentada, ou antevendo contornos mais sombrios para o futuro, ou a lei do retorno, pedem para não serem bombardeados, temem pela vida até 2008, lembram que seus estados não votaram em Bush.
São a minoria. Bush, se não houve roubo, venceu de forma “legítima”.
Típico do sistema “tudo ou nada”. Fica uma “minoria” desamparada de 48%, de um sistema político que não dá opção real, a deriva em um país cada vez mais fanático, egoísta e disposto a impor sua verdade e principalmente manter seu padrão de consumo e reflexão autista custe o que custar para os outros. E no final da conta certamente custará para eles também.
O nome é Sorry everybody. E é só clicar no link.
Voltou?
Triste, não é? Humanos dentro dos vagalhões dos sonhos dos megalomaníacos e oportunistas que nos separam.
E a maioria dos iraquianos, que sem escolha, nunca pediram para ser bombardeados, não votaram para isso, e o são? E os que estão à deriva, de arma ou não na mão, em Faluja, neste massacre democraticamente referendado e aceito?
“Morram. Pois essa é a decisão democrática da maioria dos americanos!”
Mais do que pedir desculpas, as imagens de Sorry Everybody são um contato com o mundo. Um alô para nos lembrar que ainda existem humanos lá dentro. Enquanto outros internalizam o mal, banalizam o mal, espetacularizam o mal (nada menos contraditório hoje em dia do que espetáculo e banal), institucionalizam o mal, agitam bandeirinhas e gritam histéricos “Four more year”, ignorando o mal que infligem ao outro. Estes ignoram o outro. Consiguiremos ser melhores que eles?
Alguém tem solução? O humanismo tem solução para este mundo onde os EUA, sentados em um imenso arsenal nuclear, se arrogam no direito de atacar qualquer lugar da terra, ou pessoa que julgarem ameaça, não a sua segurança, mas ao seu poder? Dos presos sem acusação em Guantánamo, a escalada de mentiras da Guerra do Iraque, alguém dimensiona o que é vivermos, e vivemos, com isto como horizonte e fundamento? Será que teremos saudade da Teoria da Destruição Mútua da Guerra Fria, cuja noção era mais pacífica que a atual, entre guerras preventivas, e perspectivas reais de uso de armas nucleares, pelos Estados Unidos, por estados ameaçados por ele e em ataques terroristas?
quinta-feira, novembro 04, 2004
O (EXTERMINADOR DO) FUTURO PRESIDENTE DOS ESTADOS UNIDOS
O futuro presidente dos Estados Unidos é conhecido e admirado no mundo todo. Apesar ou talvez até por causa da sua imagem associada à violência. Pôsteres seus adornam paredes pelo planeta e muitos o olham como um exemplo, passando horas e horas para ficar mais parecido com ele.
A sua eleição, no fundo, impõem por si só terror nos países que queiram desafiar a superpotência, e os desestimula a procurar ter à bomba atômica. Todos já viram como ele lida com terroristas, e como caça seus inimigos até o fim. Mesmo que seja muito mais simbólico que real, mesmo que tenha um que de ridículo, é uma figura que impõem medo.
Pode-se dizer que ele fala mal inglês, tropeça nas palavras, que é um ignorante, robótico, e bronco para entender a dinâmica das relações internacionais, mas vamos falar sério, lá como aqui, tudo isso carrega uma grande dose de preconceito. E se até a pouco tempo atrás todos gostavam dele, era por causa justamente da sua força brutal. Porque mudar de idéia agora?
Acusam-no de ser uma farsa, de ter se feito e construído sua imagem através de ficções, de conflitos fictícios. De que é um ator, e que suas falas não exprimem o que pensa, que não se sabe quem ele realmente é. Que ele só lê os textos que outros escrevem, de forma cuidadosa e calculada, para dar maior verossimilhança as suas histórias e versões.
Dizem, e mostram vídeos para provar, que ele já foi festeiro e que deve ter consumido cocaína. E que é um bárbaro.
Eu estou falando do futuro presidente dos Estados Unidos. Arnold Schwarzenegger. Hoje ele é o nome mais forte dentro do partido republicano para a sucessão de Bush. Imagine daqui a cinco anos, você assistindo na TV, e o presidente Arnold declarando guerra à Síria, Irã, Cuba, França, enfim, a algum país que sobreviva aos próximos quatro anos.
Arnold nasceu na Áustria, e hoje só americanos nativos podem se candidatar à Casa Branca, mas está tramitando no congresso norte-americano uma lei sob encomenda, para permitir que naturalizados em condições semelhantes às dele possam se candidatar. E a maioria do congresso é republicana.
DICAS DE LEITURA
DICAS DE LEITURA
- Ontem fui à um seminário em torno de um livro da editora em que trabalho, que discutia Edward Said, e a questão da construção das narrativas e dos estereótipos que justificam fundamentalismos e guerras. Por narrativas se quer dizer no sentido amplo, filmes, ficções e também jornalismo. Veja este texto de Larry Rohter. O sujeito pode ter virado um personagem folclórico no Brasil, fazer matérias curiosas e até interessante sobre Hermeto Paschoal. Não concordo em expulsar o sujeito, há de se achar outras maneiras de lidar com ele, mas o fato dele fazer a imagem do Brasil para o mundo, isto é realmente um assunto muito sério e preocupante. Rohter diz que Brasil assusta o mundo com programa nuclear - The New York Times (31/10/2004)
- Tutty Vasquez reclama de não ter assunto e dos furtos entre colunistas. Passatempo: Mártires da falta de assunto
- Adriana Maximiliano no nominimo, sobre os 30 anos da revista especializada em maconha “High times” Uma maconheira balzaquiana
sábado, outubro 23, 2004
VIAJANDO
Domingo à noite, hora morta, chove lá fora, e eu decido rodar o mundo sem sair do lugar. A turnê começa motivada pela amiga que faz anos não via, que me achou pelo Orkut e pede notícias minhas desde Boulder, Colorado. Mando as poucas que tenho e pergunto as dela. Não sei nada do lugar, exceto que ela mora na “cidade do hotel do Iluminado do Kubrick”. O que soa bem assustador, como se ela tivesse que tomar cuidado com Jack Nicholson empunhando um machado e rios de sangue que jorram dos elevadores do local...
Sigo à viagem com o colega que está em um avião para reencontrar a namorada na Espanha. Desejo sorte, registro saudades e faço uns acertos com ele enquanto o sujeito dorme sobre o Atlântico.
Passo adiante e dou continuidade ao diálogo sobre um livro de Edward Said, que a editora em que trabalho lançou, e que uma amiga em Londres comprou em um seminário em homenagem ao ativista e pensador palestino em Londres, após um ano de sua morte. Aqui, nenhum jornalista deu muita bola para este assessor de imprensa quanto a isso. Tudo bem. Somos muitos e o espaço, pouco.
Decido girar de vez o mundo, e viajando no tempo e espaço, escrevo para um ex-amor, não sei se em Möst, Praga, Liberec ou em que cidade, em que hospital ela anda, pedindo as mesmas notícias que a amiga de Boulder pede para mim.
Com muita saudade da minha namorada, mando aquele texto de Robert Kurz que ela havia me pedido por e-mail, e por algum problema da lista papelotes, ou do seu desmoderado moderador, ela nunca havia recebido (se tem o mesmo problema, não dê reply, mande direto e reclame). Não que ela vá ler nestes dias em que está desbravando, brava que é, o norte da Argentina: Tucuman, Cafayate etc. Brava no bom sentido, para ela não ficar comigo no mau.
Outro alô, e mais notícias, sempre as notícias, da minha irmã que foi morar na Paris para onde todo mundo quer ir, e onde ela foi parar meio sem querer querendo, tendo que agüentar todo mundo dizer que era chique a dura batalha que não tem nada de chique. Dizer que é chique é uma merda de preguiça mental. Quem sabe o que é, sabe que foi sim extraordinário pela superação.
Depois, um contato-convite com pessoa querida da mais exótica e distante das culturas: a carioca. Para que ele venha em mais uma excursão antropológica ao planalto, combater os bandeirantes de merda que aqui residem e votam naquele sujeito com nome do acidente geográfico que nos separa do litoral (deve ser o desejo incosciente de ir á praia que provoca este voto).
Leio na Folha de S. Paulo as notícias que a ex-colega de faculdade traz do debate entre os candidatos à “dono do mundo”, Bush e Kerry, no Missouri, e por telefone, aquele alô para minha mãe que com minha outra irmã aproveita o feriado em Santos, onde do mundo não se decide nada.
Não deu tempo de visitar pessoalmente meu avô em Higienópolis, ele que dizia que ia “correr o mundo”: Guarulhos, Santo André, se não me seguram vou até Diadema. Adiei de novo.
O filósofo esloveno Slavoj Zizek, avisa desde a pequena Ljubljana, que tem grande vontade de vir, mas só pode visitar o Brasil depois de fevereiro. No seu texto sobre uma nova luta de classes, entre as favelas excluídas e comunitárias versus uma nova classe global simbólica, de mídias, universidades e gestores de capital, urbanos/globalizados, com mais semelhanças e referências comuns entre si nos milhares de quilômetros conectados por e-mails, filmes, seriados e aviões, do que com aqueles que fisicamente moram a dois quilômetros deles.
Um rapaz que faz samba e joga basquete, me mostra suas músicas na rua, estilo clássico, talvez até demais, que sonha levar ao “Zeca”, como se falasse em Meca, donde partiriam milagres. O problema é que não tem como ser contatado. Sem telefone, fixo ou celular, sem saber mexer no computador, sem grana para telefonar, sem residência fixa entre aqui e lá. Faz um a cobrar, sugiro, que ligo de volta para onde tu estiver.
Para a amiga de Boulder, que perguntava por onde eu andava, respondi que nas mesmas ruas de sempre, da zona norte da cidade-monstro em que nos conhecemos. Entro na internet e vejo fotos do lugar. As melhores imagens são da viagem da menininha loira Regan, tiradas por Meinhardt Greeff, que deve ser o pai ou mãe dela (Meinhardt é homem ou mulher?), e jogou a excursão familiar para o mundo ver.
Montanhas, lagos, canyons lindos, alces, aquelas pessoas com aquela cara de americanos. Lugar idílico pelas fotos da pequena Regan. Bonito, dá vontade de conhecer.
As fotos me lembraram que as montanhas de Boulder não são apenas o cenário de O “Iluminado” de Kubrick. Partes das mesmas filmagens, de helicópteros sobrevoando uma floresta do início deste filme, foram emprestadas para o fim de outro, a também obra-prima Blade Runner, de Ridley Scott. As mesmas cenas representando em um caso, o isolamento que leva a loucura e ao terror, e no outro, a liberdade, a fuga da opressão em busca de um futuro desconhecido, mas aberto à possibilidade do amor. As mesmas montanhas de Boulder. Questão de montagem? Faz tempo que eu não vejo Blade Runner e hoje de manhã por acaso me peguei com vontade de assisti-lo pela sei lá, 20ª vez. Talvez quando ela voltar da Argentina.
domingo, outubro 03, 2004
APOSTAS ELEITORAIS
Marta X Serra: O Datafolha projeta 37% para serra versus 34% para Marta (o que dá 40% X 37% dos votos válidos). É um empate técnico pela margem de erro. Eu creio que Marta ganhará a votação do primeiro turno por uma vantagem mínima, não superior a 2% dos votos.
Vereadores: O PT hoje tem 18. Acho que sai da eleição com 14. O PSDB hoje tem 8. Acho que sai dela com 11.
Vereadores do PT que devem se eleger (sem order de votação):
1) Arselino Tatto
2) João Antonio
3) Beto Custódio
4) Lucila
5) Carlos Neder
6) paulo Teixeira
7) José Américo
8)Soninha
9) Claudete Alves
10) Chico Macena
11) Donato
12) Nabil Bonduki
13) Irma Passoni
14) Pampa
Eu não conheço todos os vereadores do PSDB, mas acho que Willian Woo, Gilberto Natalini, Carlos Alberto Bezerra, Marcos Zerbini e Ricardo Montoro se reelegem. Quanto a José Aníbal, se elege, mas não acho que será o puxador de votos que o PSDB espera dele. Deve ter uma votação em torno de 150 mil votos.
Quem eu espero que não seja eleito mas deve ser: Milton Leite, Faria Lima (Prona). Espero que Maria Helena também não volte à Câmara.
Vamos checar isso depois das eleições.
sexta-feira, outubro 01, 2004
AAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHH ELEIÇÕES AAAAA NÃO !!!!!!
Jornalistas não deveriam declarar seu voto. Muito menos três vezes. Será? Ou será que isso é uma versão tapuia, no fundo anti-democrática, do que seria democracia e isenção. Minha democracia ideal não é (auto) repressão ou um calar de vozes. É a multiplicidade de vozes sinceras nas suas diferentes opiniões. Se Trip, Tutty Vasquez,e outros declaram voto, e se a Folha pratica mas não declara o seu, porque não eu posso falar o meu também, no Íbis do jornalismo, o menor veículo de imprensa não prensado do mundo?
Hoje termino a série e certamente esgoto sua paciência. Juro que não fiquei tão chato assim.
PARTE 5 - PEQUENO GUIA TÁTICO PARA VOTAR EM VEREADOR
Muitas pessoas desprezam ou votam de forma descuidada para vereador. Este pequeno guia tenta ajudar a pesarem melhor este voto, que de quem trabalhou lá dentro, tem muita conseqüência, tanta quanto do majoritário. Vou explicar colocando-me como exemplo.
Passo 1 – linhas gerais do voto ou a opção política
Quais são os valores do seu voto? Esquerda e direita, dizem , significam pouco, mas é mais ou menos por aí. Você é a favor ou contra o atual governo? Quem é seu candidato á prefeito? Um voto para alguém que já o apóia pode significar menos fisiologismo. Quais são as áreas prioritárias que devem ser abordadas por um vereador?
No meu caso, apoio o governo com ressalvas, e meus valores são mais próximos do que, para não chamar de esquerda do PT, vamos chamar de “PT old school”, em homenagem ao hip-hop. Dentro da bancada atual do PT, existe uma divisão entre os governistas e a chamada “bancadinha”, formada pelos vereadores de postura mais independente, crítica e “corretiva”, em relação ao executivo. Existe gente que argumenta que isso adianta pouco, que eles no fundo reforçam uma ilusão de um PT que hoje é “centro –direita”, mas eu acho que de fato eles conseguem melhorar o rumo do governo.
Este é o campo do meu voto. PT independente. Não voto na legenda (não recomendo isso), mas o voto para reforçar diferenças de conteúdo dentro do partido e premiar boas atuações. O seu poderia ser “oposição”, ou “vereadores ligados ao Serra”. O campo limita meu voto a alguns nomes válidos e dá sentido à escolha.
Passo 2 –temas e práticas
Dentro do campo político há uma série de temas que acho importante: participação popular (os conselhos e orçamento participativo), planejamento, proteção do patrimônio público, democratização da comunicação, meio ambiente (transporte público acima do carro), apoio e relação com os movimentos sociais, além dos óbvios: saúde, educação. E claro, ser ético. É muito difícil o mesmo vereador abordar de forma aprofundada todos eles. Por isso mesmo, embora o voto meu seja só um, várias candidaturas são votos válidos.
As práticas são como ele atua. A forma do conteúdo. Mandatos que não praticam o clientelismo, atendendo as pessoas de uma maneira séria e não baseada na troca de favores, que promovem o debate, que informam suas atividades, que tem uma equipe técnica bem preparada no gabinete, e que não dizem só “amén”, ou “vade retro”, ao executivo.
Em resumo, são práticas que permitam que você acompanhe e cobre do mandato após a eleição.
Como a vida é cheia de surpresas, preferi dar preferência a nomes que já têm um trabalho estruturado e testado (o que, de resto, não impede surpresas). Reduzi então para votar em candidatos da atual legislatura. “Renovação” é um mantra usado por muitos picaretas. Prefiro reforçar e mostrar que práticas sérias de mandato podem ser bem-sucedidas.
Dentro de uma cidade imensa como São Paulo, os candidatos também se dividem um pouco por “regiões”, lógica importante principalmente na periferia. Eu acredito que com práticas sérias de mandato é possível superar esta questão que para o bem e para o mal, está relacionada com clientelismo e loteamento de cargos em subprefeituras. Mas é um critério para quem quiser que seja, e não necessariamente negativo se acompanhado dos de cima.
É irônico dizer que os critérios acima me deixaram com candidatos de origem e mais relacionados com a classe média, embora com sinceras e grandes relações com os movimentos sociais. Algo para se pensar.
Passo 3 – sua experiência
Na liderança de governo, onde trabalhei, tínhamos um “álbum de figurinhas”, com foto, nome e telefones de cada vereador. Vi o debate e negociações em torno de projetos importantes para a cidade e ouvi pessoas envolvidas em várias áreas do governo e a seriedade de políticos em diversas situações. Meu voto inevitavelmente nasce daí também.
Passo 4 -Intermezzo
Uma passagem desnecessária (pule se tiver juízo). Tenho dois conhecidos de longa data que se candidataram nesta eleição. Um é meu colega de turma da USP, Eduardo Kui, candidato pelo PSDB. Lendo seu site, eu que comecei a trabalhar aos 22, ele com quase metade disso, que não sou casado nem financeiramente bem sucedido, me senti um fracassado no sonho e valores da classe média. Desejo um feliz nascimento para seu primeiro filho. Mas lendo sua proposta tosca, fascista, sobre favelas, me senti assustado com o desconhecimento do tema pelo meu simpático colega de turma que propõe a sua “erradicação” em nome de predinhos Cingapuras, proposta irreal e anti-democrática. Existem sobrados na favela, um comércio próprio e empregos, que seriam arrasados por tal medida. O Cingapura como solução para favelas só satisfaz os preconceitos e a ignorância da classe média que as vê da avenida.
A outra pessoa é a Soninha, pelo PT. Pessoalmente vou votar em um outro candidato, pelos motivos dispostos acima e abaixo, mas a Soninha é uma pessoa que admiro, conheço faz tempo e confio na sua seriedade. Não precisa da política e está com boa vontade entrando nessa. Defende temas novos e alguns até tabus para a esquerda. Quer construir um mandato participativo e diferente. E está consciente donde esta se metendo. É uma experiência boa, para quem quiser votar nela.
Os dois tem algo que parece ser pré-requisito para ser vereador. Todos os vereadores que eu conheci são um pouco (alguns muito) malucos, no bom ou no mal sentido da palavra. Hiper-ativos, insones etc...
Passo 5 – nomes
Vou votar no vereador Nabil Bonduki - 13633. Mais informações sobre ele no seu site: www.nabilbonduki.com.br. Mais do que apenas votar nele, voto na sua equipe, na prática de mandato, que tanto na análise, como na proposição de projetos e alterações em projetos, e práticas de participação e comunicação do mandato, construíram um trabalho excelente que merece ter continuidade.
Se pudesse votar em dois, votaria também em Carlos Neder - 13666. www.carlosneder.org.br . Um político de uma tremenda seriedade e honestidade, ligado à área de saúde, faz uma campanha com poucos recursos e nítida má vontade da direção do PT contra ele. Era o vereador de que se ouvia de jornalistas “ se é do Neder, não tem truque, é coisa séria, pode ficar tranqüilo”. Foi considerado por ONGs o melhor vereador da atual legislatura.
Se pudesse votar em três votaria ainda na Soninha - 13108. www.soninha.com.br Temas novos como drogas, cultura jovem, reciclagem e um mandato que certamente atrairá pessoas para as questões políticas e participação.
Existem outras candidaturas sérias. Carlos Gianazzi, também do PT, defende a educação com unhas e dentes e é bem rebelde, por assim dizer. Odilon Guedes, da região do Jabaquara, é bastante ligado a questões de orçamento e participação. Tem gente que defende o voto em Paulo Teixeira, por conta de questões de “disputa interna” do PT, como contra peso ao poder de Rui Falcão e da família Tatto. Acho discutível, a diferença e a disputa, mas respeito.
Ao indicar apenas candidatos do PT, não quero dizer que são os únicos sérios. É apenas o meu campo. Dentro de outras visões ideológicas, existem políticos sérios (o termo em si já é um tanto relativo) em outros partidos.
PARTE 4 – PARA ALÉM DO VOTO E DESTA ELEIÇÃO (PÓS PT)
Ia escrever só a parte 5. Mas a iniciativa de um grupo de intelectuais (a palavra me incomoda e trabalho tanto com ela), de São Paulo de pregar o voto nulo ou em candidaturas à esquerda da do PT, me força à cair de boca nele. Curiosamente envolve uma série de autores da editora em que eu trabalho. Aos Favres com os escrúpulos de assessor de imprensa e vamos escrever sobre isso.
Pegue este dois textos publicados no site Carta Maior: SP prioriza o social, escrito por Emir Sader. E esta reportagem de Maurício Hashizume, que fala e coloca trechos do manifesto que pede o voto nulo, assinado por ex-petistas, ainda (acho) petistas, e ex-membros do governo: Desiludidos, intelectuais de esquerda optam por voto nulo. Curioso, né?
A opção pelo voto nulo é válida na vida. Embora discorde, admiro os anarquistas que tem uma visão coerente sobre o assunto, e que foram protestar no centro da cidade. Agora, isso vindo de pessoas que sequer ainda se desfiliaram do PT mostra que a raiva contra a traição do partido à sua origem feita pela cúpula do partido anda cegando. Principalmente quando se lê e se ouve de pessoas que defendem o voto nulo de que Serra e Marta são “iguais”, ou de que ficariam mais felizes com a vitória do primeiro, ou de que o PT é o neoliberalismo mais radical do que o PSDB.
A iniciativa e o manifesto seriam “conscientes”. A arrogância de arvorar-se assim é impressionante. Ele não menciona o segundo turno, nem uma postura em relação ao voto para o legislativo (muitos vão votar em vereadores do PT). Eu, que sempre fui tachado (para tirar sarro da minha cara) de anarquista, vejo me de repente com companhias insuspeitas.
Pior: alguns acenam, que no segundo turno, melhor seria votar em Serra, contra o PT, do que em Marta. Quem defende isso pode ter visto que o PT mudou, mas não notou que o PSDB mudou também, estando hoje muito mais à direita. Não notou à disputa que se dá em São Paulo, ainda que “não substantiva”, para quem tem a vida estável de “classe média crítica”, é revolucionária para quem anda de ônibus, ou tem auxílio de um programa da prefeitura. Que existe mais mecanismos de participação, por mais problemas que eles tenham. Que enfim, existe algo para se defender. Não vêm com quem e com que estão se aliando.
O governo de Marta não é simples, nem perfeito, nem ideal. A Articulação do PT fez de tudo, planejou e atuou para encurralar a esquerda a não ter opção e votar em Marta. Isso é triste? É. Mas deu certo por enquanto e não dá para brincar de mujahadin intelectual, a não se que se queira rifar a realidade, como o PCO que acha que bilhete único é medida contra os trabalhadores, realidade talvez já rifada faz tempo por alguns.
O país precisa de opções políticas de esquerda, para ser oposição e/ou opção ao PT. Mas estas opções têm que ser construídas, não são frutos de factóides. O voto inútil nesta eleição não vai ajudá-las, e votar em Marta não vai atrapalhar este objetivo. Neste momento, eleitoreiro, muito mais útil é reforçar as forças à esquerda dentro do próprio PT.
domingo, setembro 26, 2004
SUPER-CABEÇÕES IMAGINÁRIA BANDA
Reunidos por um ser misterioso que nenhum deles conhece, a liga é coordenada não por uma, mas por duas cabeças brilhantes, maestros que orquestram as estratégias da super equipe. Tom Jobim é o homem das missões mais delicadas, do jeito fino suave e discreto da bossa nova de se infiltrar pelos cantos mais perigosos, de passar pelas menores frestas, rolando macio e te pegando pelos pés e pela cabeça. Altamente consciente e integrado a natureza, conhece o canto dos pássaros para emocionar o coração e embalar a tardinha que cai. Isaac Hayes, literalmente uma cabeça brilhante, é o homem dos metais poderosos, especialista em operações noturnas, na balada lenta ou nas pancadas dançantes, solta a banda para missões nas grandes metrópoles internacionais, nos inferninhos do bem e do mal, no melhor estilo blaxploitation.
Os músicos de confiança destes senhores seguram a cozinha da coisa, não deixando o molho desandar. Na bateria, o homem polvo que vale por três, o som original da mãe África, onde tudo começou e para onde tudo retorna, mandando andamentos velozes, quebrados e complicados. Diretamente da Nigéria, Tony Allen.
No baixo, vocês o conhecem do clip do Dee Lite, o homem dos óculos que vêem estrelas. Mas muito, muito antes disso, ele já dava a linha para James Brown e outros papas do funk dançarem. Bootsy Coolins.
Na percussão Naná não nana não. E na cuíca, ele, que não se atrapalha e faz da suas risadas quase um ritmo adicional na pegada. Contra qualquer mau-humor, Mussum, o Original. Nele o samba, a birita e o bom humor pedem passagem.
Bota duas camadas, entre piano e teclado por cima disso. Mas bota pra pirar de vez mesmo. Aí chamaram os caras certos. No teclado Herbie Hancock leva um debate incompreensível para qualquer ser humano normal com a sua contraparte no piano, o velho e bom João Donato. Exposição excessiva a esta combinação mortal, ou tentar acompanhar suas notas de muito perto sem a proteção apropriada, ocasiona insanidade permanente. Verdadeiras melodias de criação em massa partem destes 20 dedos.
Na guitarra, não havia de haver outro capaz de segurar o bixo. Pondo fogo (literalmente) nas apresentações, ele que deixou a paz eterna para se juntar ao grupo: Jimi Hendrix. “Mesmo em um grupo como o nosso, Hendrix é um tipo especial” afirmou Hancock ao jornalista Hunter Thompson, que como free-lancer foi o único credenciado a acompanhar o grupo. As credenciais foram negadas a Oriana Fallaci e Norman Mailer, mas estão reconsiderando no caso dele.
O naipe de metais é também um duo, que faz um som do além. Oberdan Magalhães, o homem que juntou funk e samba no seu sax. E quem no trompete? Só poderia ser ele: Miles Davis. “Hey Hendrix, finalmente vamos fazer aquele disco juntos”, comentou ao chegar no primeiro ensaio. Ensaio é modo de dizer, que eles são que nem o Romário; pra que treinar se eles já sabem, ou melhor, nunca planejam o que fazer no próximo movimento desta jam brilhante?
O grupo não parou no tempo e colocou o hip-hop para ferver com um DJ e um MC. Muitos quiseram entrar na parada. Mas “ele”, a força por detrás do grupo, decidiu ir pelo “hip-hop old school” de Afrika Bambaata nas pick-ups e Chuck D do Public Enemy para soltar ocasionais e poderosos discursos rimados. Afinal esta é uma banda politizada.
A parede sonora tem sua linha de frente, a infantaria vocal, formada por duas colunas de três membros, uma feminina, outra masculina. Ás damas primeiro. Da fria Islândia, ela é pequena, ela é exótica, ela é Björk. Direto do Planeta Fome, ela tem energia, ela faz graves, médios e agudos, ela é do balacobaco, ela não é Ella, mas é Elza! Soares! E a principal vocalista é a Pelé da voz, com ritmo, carisma, técnica e emoção. Personalidade forte e geniosa comparável apenas ao líder de palco do grupo, arranca rabo nos ensaios mas é imprescindível e querida por todos. Elis Regina.
Do outro lado, os acompanhantes das ladies. Ele é um cavalheiro, ele é a voz, o charme e o estilo. Marvin Gaye, a voz divina. Ele é baderneiro. Fornece o bagulho, desanca o técnico de som e às vezes nem aparece. É o Tim Maia. Quilos e quilos de emoção e dá para ver que ele está feliz, que se sente bonito estando junto de um grupo desses. Ele não tem técnica vocal. Ele permanece a maior parte do show preso em uma jaula, amordaçado para não desafinar o conjunto. Mas aquele pequeno e impertinente inglês é um mal necessário e no fundo, bem no fundo, boa gente. Uma espécie de Wolverine dos super-cabeções, sem técnica nem groove, solto de vez em quando sob um solo de bateria para ir direto na jugular do inimigo com sua fúria selvagem e depois ser dominado apenas por Tim e Afrika se jogando em cima dele. O punk da banda. Há quem diga que não há lugar para ele em um grupo desses. Há quem diga que é apenas uma jogada de marketing. Mas ninguém tem coragem de dizer isso na cara dele. O ensandecido e incontrolável Johnny Rotten.
No palco, liderando esta patota, só poderia ser ele. Dizem que as três vocalistas agora são suas esposas. Dizem que ele assustou Jonnhy Rotten, que Hendirix achou-se careta, que Hancock não güentou uma de suas maratonas de shows de seis horas e que Bootsy Collins perdeu-se dele nos seus contratempos rítmicos. Completa o grupo, ou melhor o grupo não fica completo sem ele. E é o espírito mesmo. Nos vocais, piano e sax (quase todos ao mesmo tempo) dos super-cabeções, o homem que fez da música arma de guerrilha, e que com ela fundou um país. Do passado ao futuro, ninguém fez letras de protestos mais porrada, grooves mais dançantes, pele e sangue torturados transformados em som. O homem que não pode morrer, porque tem a morte em seu nome. O presidente negro. Fela Anikulapo Kuti, direto da República de Kalakuta.
Estes são o Super-Cabeções Imaginária Banda. Mas quem são seus inimigos? Quem juntou os super cabeções e por que? Quais serão seus álbuns? Onde será o próximo show? Quem ficou de fora e gostaria de entrar? Porque João Gilberto recusou o convite de ser um membro? Será que todos sobreviverão ao show que farão em frente à Casa Branca?
A resposta para esta e outras perguntas virão em um outro episódio, se vierem, em outro dia qualquer.
O BRASIL, O PATRIOTISMO O ABSTRATO E A PAREDE
Na semana de sete de setembro, o Brasil, o governo, a Veja, o Buzina MTV etc...discutiram o patriotismo, o país, a independência X a missão do FMI. Chego atrasado. “Esta pauta já foi, não podemos repetir o assunto, agora só daqui três meses”, hão de dizer.
O debate rolou em torno da vontade do governo Lula de reanimar o sentimento patriótico. Apanhou muito, foi comparada a ditadura etc...Mas não é exatamente disso que quero falar.
Tem aquela frase da pátria ou o patriotismo ser o último refúgio dos canalhas, dos covardes, dos infames, algo assim. Concordo com este algo assim. Vide Bush, e é mesmo. Refúgio também de grandes negócios enrolados na bandeira. Outra frase boa relacionada é que guerra são pessoas que não se conhecem e se matam em nome de pessoas que se conhecem e não se matam. Opõem as relações dos ricos dos muitos países que jogam os pobres dos seus países uns contra os outros. Mas o patriotismo nem sempre é o refúgio dos covardes. Ás vezes é sincero e bonito, principalmente quando não parte dos mandatários nem se exige que se morra ou mate por ele, e quando não descamba para rejeição do outro, do estrangeiro. Mas novamente, não é do que eu quero falar. Chego lá.
Discute-se muito, o Brasil é isso, o Brasil é aquilo. Existem os ufanistas, os nacionalistas, existia o Brizola, tem a frase do João Gilberto (Fazer Brasil é coisa séria), existiam e existem pessoas obcecadas com a idéia de um projeto nacional, e contraditoriamente, embora concorde com os parágrafos acima e com a noção anarquista do homem acima das fronteiras e da violência inerente ao Estado, as vezes no meu canto inútil, gosto de pensar nisso também.
Cheguei no que quero escrever sobre.
Houve uma idéia de país a ser construída, do que o constitui, que foi sendo feita da semana de arte moderna, da adoção do Samba, dos departamentos de propaganda do Estado Novo, da construção de Brasília, Bossa Nova, cinema novo, industrialização, antropofagia e tropicalismo, ditadura militar, futebol e a costura da infra-estrutura comunicacional do Oiapoque ao Chuí, pela Globo.
Esta idéia de nação é cheia de contradições, desconstruções (tropicalismo), “modernizações conservadoras” (Bahia de ACM e a já citada Globo), “modernização conservadora afrancesada com pretensões hegemônicas paulista”(USP), e idéias que balançam, que são, ao mesmo tempo, objetivos e resultados bonitos no seu lado bom e hipocrisias concretas que dissimulam problemas no seu lado ruim. A principal delas é a democracia racial. Outra mais cínica e que foi reforçada com a chegada de Lula ao poder é a da fácil mobilidade social.
Estas idéias se discutem até hoje. O Brasil como idéia abstrata é facilmente manipulável, campo de disputa, cabo-de-guerra. É impressionante com que facilidade se diz que o Brasil é isso ou aquilo, que se sabe o que é o Brasil. Tema de Diogo Mainardi quase toda semana, em bater nesta idéia de país, em classificá-lo como inviável, um fracasso por natureza, sem explicar muito o porque disso. O homem, que escreve bem paca, provoca melhor ainda, talvez faça disso até sincera e bem remunerada profissão de fé. Mainardi bate porque é patriota, porque acha que esta é a sua melhor função. Provocar, criticar, destroçar a auto-estima nacional para ver se ela se move. É uma visão otimista e simpática do personagem, né? Veja bem, o sujeito escreve bem, e bem-sucedido, e eu não, tenho que guardar algum respeito (Rá! Rá!)...
Este Brasil abstrato que o governo faz campanha em cima, que o Galvão joga contra a Argentina, que tem gente que diz de que não se pode falar mal e tem os que só falam mal etc... Discutir o país assim me parece entre o estágio de formar uma idéia de nação e completá-la, ser esta nação algo natural, madura.
Primeiras modestas respostas, ou não respostas, às perguntas do começo do texto. O Brasil não deu certo, não haverá um dia que “deu certo” e acabou, podemos todos ir para a praia tomar caipirinha, como talvez a esquerda tenha parcialmente pensado (parte dela e parte da cabeça de quase toda) com a vitória de Lula. A vida continua e é contínua. E enquanto não estivermos com tanques americanos nas nossas ruas, como o Iraque, o Brasil não deu totalmente errado.
Mas a segunda leva de resposta é mais importante que à acima. O Brasil dá certo. Todo o dia. E dá terrivelmente errado. Todo o dia. Porque o Brasil não é uma simples entidade abstrata que dá para discutir fácil assim. E a vida de um território e daqueles que carregam esta identidade a gosto e a contragosto. Dá errado para muitos, certo para alguns. Dá certo naquela festa, naquele emprego, errado na violência policial, desigualdade, racismo. Tem muita coisa que dá errado que temos que consertar. E que dá certo, inclusive algumas coisas que dão mais certo aqui que em qualquer outro lugar, que temos que reforçar.
O país existe como uma parede existe. Temos que lidar com ele e somos tratados como brasileiros. Quando saímos do país vemos que temos características próprias, diferentes. Parte do nosso complexo subdesenvolvido é lidar com ele de forma tão abstrata, como se pudéssemos alterá-lo só na base da idéia, do verbo, ou nestes tempos Duda, na propaganda. O que nos afasta e impede de tratá-lo de forma real, das questões e disputas reais.
Terceira, para Mainardi, um ponto fundamental que discordamos, tenho a impressão, é que ele acha que o Brasil é como é porque deu errado. O país seria um desastre construído pela sua imbecilidade. E eu acho que o Brasil é o que é porque foi um projeto errado de meia dúzia em benefício próprio (parte desta meia dúzia costuma freqüentar as páginas do mesmo semanário onde Mainardi escreve), que deu e segue dando muito certo para eles e ruim para os outros. Ele acha que é homicídio culposo (na realidade que é culpa da vítima) e eu que é doloso. Uma diferencinha básica.
Lógico, que aqui, como na Venezuela que é o exemplo mais claro, tem setores que de fato jogam contra o país, porque seus interesses e identidade estão ligados à exploração deste canto subdesenvolvido (particularmente aos dos EUA), e dos pobres deste país. E claro que em um mundo complexo, a relação com estes setores não é simples, já que o poder econômico ligado a eles é capaz de restringir, fazer chantagem, isolar e retaliar o poder do estado (são quase o mesmo) e a população.
Num parágrafo mais chato, mas talvez a disputa hoje seja exatamente esta, e é lógico que privilegiar o capital financeiro que pode sair do país em um clique, é menos construção nacional do que privilegiar os trabalhadores que tem laço e constroem o país e sua vida nele. Hoje decidem a taxa de juros.
Mas para encerrar este papo em cima, a quarta rodada de resposta é o sublime resumo de tudo isso, pelo artista Tom Jobim, que depois de dizer que “a saída da música brasileira é o aeroporto”, no que talvez siga tendo razão, cunhou esta maravilha.”Os Estados Unidos é bom, mas uma bosta. O Brasil é uma bosta, mas é bom”. No campo das definições abstratas do Brasil, acho difícil algo melhor que isso.
quarta-feira, setembro 15, 2004
A HOMEPAGE DA VIDA PRIVADA
Óbvio que o principal disso gira em torno do Orkut, assunto espancado de tão batido. Surpreso que ele ainda não tenha aparecido em algum discurso patriótico do Lula, como símbolo da nossa superpotência, a hegemonia territorial sobre o mundo das amizades virtuais.
Então, o que significa hoje ser ou não ser “amigo”, “friend”? Chandler, Monica, Ross, Rachell, Phoebe e Joey? Aquele cara que você não lembra quem é, mas vai aceitar porque não sabe dizer, no caso clicar, "no"?
Os corredores de fotos do Orkut me lembram a imagem de pessoas nas janelas de uma cidade do interior, fofocando da vida uns dos outros, olhando o movimento na rua. Todos se conhecem, um pequeno centro antigo de uma cidade histórica de Minas, onde as pessoas comentam que fulano é amigo do sicrano, está solteiro, tem uma queda por Lisbela, admira muito o comendador, mas que o filho da vizinha anda com um pessoal esquisito que gosta de um tal de Bob Marley e que queima um mato esquisito. O Orkut tem de desvantagem da fofoca mineira que nele não acompanha pão-de-queijo.
Maria Creusa, 32 anos, solteira, tricota. “Quem acredita nesta história de open relationship?” Eu fiquei espantado, com as liberalidades de certos casais, que me pareciam tão conservadores. O outro me passa a senha. “A mulher dele não sabe nem o que é enter, e toda vez que falam em Orkut, ela procura na seção de laticínios para comprar para as crianças.” Nelson Rodrigues de certo haveria de amar o Orkut, os chats de sexo virtual, os serviços orais por telefone. Talvez muito onanismo e pouca ação, menos ainda traição e reação para fazer deles tema de uma peça batuta, um enredo batata, mas vivemos na era da fama mais do que de deitar na cama.
Se o namoro acaba, para todo mundo ver, vai deixar de ser commited para ser single? Colocar “dating (wo)men”? Mudar a orientação sexual? Vai publicar sua vida privada? Quer falar disso em um scrap? Tirei a questão do meu questionário.
Ás vezes dá vontade, dá saudade, quando sonho de liberdade era não ter que dar satisfação para ninguém. Sem identidade, sem destino, sem endereço. Real ou virtual. Ao menos dar-se o luxo de poder ser discreto.
E afinal, quanto tempo é elegante esperar antes de pedir para gravar o CD que você não tem e deu para o amigo de aniversário?