quarta-feira, abril 18, 2007

VQP - Capa câmbio, alô câmbio?

A matéria da Veja de capa, sobre o câmbio, tem algumas verdades. A valorização de hoje não é igual a de 1998, na medida que ela ocorre em um mercado livre da moeda, e se sustenta parcialmente no saldo da balança comercial e na melhoria do cenário internacional. Veja também está certa na sua análise da relação entre a popularidade de Lula e a economia, e que este cenário deve permanecer no futuro próximo. Há aspectos positivos no câmbio valorizado para alguns setores, como a compra de máquinas mais modernas e estudo no exterior. Eu também acho divertido comprar equipamentos e viajar para a Europa (não para a Disney...), como qualquer um. Mas há outros setores que sofrem. E a quantidade de abobrinha e besteiras na matéria ainda assim, são de revirar o estômago.

“Os mais céticos custam a aceitar que o país mudou de patamar e afirmam que a valorização do real nada mais é do que um reflexo dos altos juros brasileiros, que, segundo eles, atraem capital especulativo e distorcem o câmbio. Mas essa é a visão de uma minoria. Opiniões à parte, o fato é que os investidores dos mercados financeiros nunca depositaram tanta confiança na estabilidade monetária de longo prazo no país.”


Veja ridiculariza opiniões sérias e destrói qualquer debate. Trata quem discorda dela como idiota. É lógico, contábil e óbvio que a arbitragem de ganhos com os juros e o câmbio brasileiro atrai volumes financeiros significativos e influencia na taxa de câmbio. Inclusive pode ser ela mesmo fator de instabilidade no futuro, se a valorização for excessiva. Assim como é óbvio que não é só isso. As pessoas se preocupam com uma pauta de exportações baseadas em commodities, que hoje estão com demanda forte e preço alto, mas isso pode mudar (lembram como Veja gozava com soja por volta de 2002/2003, era o futuro do país, e como o setor quebrou fácil como um graveto em 2004/2005?).

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Quando eu leio a matéria da Veja sobre câmbio forte falar em “darwinismo industrial”, eu lembro das vacas européias. Sim, não é industrial, mas está dentro da discussão sobre eficiência econômica. As vacas européias estão entre os bichos de estimação mais caros do mundo. Economicamente, se fossemos levar a lógica da eficiência econômica a sério, não existiriam. As vaquinhas que tem que ser protegidas do inverno europeu com subsídios não tem como concorrer com as suas irmãs australianas, argentinas e brasileiras, ou mesmo de algumas regiões do Estados Unidos. Assim como as plantas industriais de etanol baseado em milho que estão sendo erguidas nos EUA, são irracionais se pensarmos nos termos de Veja. Mas o mundo não funciona assim, e nenhum país sério, nenhum governo sério, nenhuma sociedade minimamente solidária, mesmo no capitalismo, arrebenta setores da economia como Veja acha bacana. Ela, no mínimo, tenta lhes dar uma chance de desenvolvimento. O “Brasil” abstrato tratado por Veja esmaga e não liga para setores da economia – empresas, empregos, pessoas – que poderiam estar melhor e não precisariam ser eliminados por uma destruição criativa. A desvalorização de 1999 foi o que depois permitiu a adaptação da economia brasileira a folia do populismo cambial do período 1993-1998 (que combinou câmbio valorizado com juros altos, devastando a economia). Tudo na vida traz matizes. 1993-1998 foi importante para conter a inflação. Mas não é verdade que precisava arrasar a economia para fazê-lo e depois haver o trauma e golpe da desvalorização e recessão. O mesmo vale para hoje.

VQP - Capa câmbio 2

Um amigo apontou os problemas do seguinte trecho da matéria:

“No passado, o governante de plantão interferia nas cotações para beneficiar esse ou aquele setor. Em todo o mundo, tal modelo fracassou e foi abandonado, porque trouxe endividamento, inflação e baixa produtividade.”

O autor da "matéria", o “brilhante” jornalista econômico Giuliano Guandalini, só esqueceu da Índia e da China, onde isso acontece e é a região global de maior crescimento econômico (embora este crescimento ocorra sobre uma base de PIB per capita ridícula). Óbvio. São dois países pequenos, fáceis de passar despercebidos no mapa. Afinal a China e a Índia são até citados em outro trecho da matéria... E o tema do baixo valor da moeda chinesa, mantido artificialmente, só é tratado por autoridades norte-americanas o que, toda a semana?

Na coluna que mostra que a moeda brasileira foi a que mais se valorizou em relação ao dólar, Veja não nota que assim como no fato dos nossos juros serem os mais altos do mundo, há sempre algo de estranho em ser o “mais” alguma coisa em economia. A moeda brasileira se valorizou 58%. O grupo que vai do segundo ao quarto lugar, logo atrás do Brasil, com valorizações entre 54% (Eslováquia) e 39% (Polônia) são todos países que aderiram a União Européia recentemente, o que explica em grande parte tamanha valorização das suas moedas em relação ao dólar. Isso mostra como a valorização brasileira está acima do tom, porque países em processos mais ou menos “normais” estão 20 pontos percentuais para baixo da nossa valorização, que aliás, sequer parou...

Três boas sugestões (de mercado) para impedir uma valorização excessiva do real foram dadas pelo empresário Boris Tabacof, na Folha de S. Paulo de sexta-feira:

“1) rápida redução dos juros, o que não representa riscos de inflação, que seria a meta de chegar a 6% de juros reais, dito explicitamente pelo Banco Central;

2) eliminação da isenção de 15% de Imposto de Renda sobre os ganhos dos investidores estrangeiros em títulos públicos federais;

3) tributação crescente sobre rendimentos de capitais que ingressam para ganhar na arbitragem dos juros, por exemplo, pegando-se empréstimos com taxas japonesas muito baixas e trazendo para a aplicação em títulos com juros brasileiros, o que dá um lucro garantido de, no mínimo, 6% ao especulador financeiro, sendo a progressividade da taxação inversamente proporcional ao prazo de permanência do investimento não produtivo no país. Além da adoção de medidas que a criatividade das autoridades de Brasília têm demonstrado com tanto sucesso na criação de constrangimentos ao crescimento da economia brasileira.”

VQP - Mulheres contra mulheres

A vítima da semana (a esta altura, já passada) da “coluninha da maldade” de Heloisa Joly é a deputada do PC do B Manuela D´Ávila. Heloisa está se especializando em fazer uma coluna machista com a credencial de ser mulher. São as oportunidades excitantes de trabalho na mídia grande brasileira.

VQP - é mais por aí

As matérias da Veja sobre as ameaças ao Conselho Nacional de Justiça, sobre o avanço de missionários evangélicos sobre populações indígenas e as denúncias contra Jader Barbalho são importantes.

VQP - É quase por aí...

Maílson da Nóbrega assina um artigo comparando Cuba e Dubai, sobre suas visitas aos dois países, ambos ditaduras, mas uma exaltada, porque capitalista, outra criticada, porque socialista. Além de ficar claro que democracia não é o ponto aqui (Cuba é considerada mais “democrática” que Dubai) e a simpatia de citar Mike Davis, Maílson é obrigado a reconhecer que os cubanos são altamente instruídos, cosmopolitas e saudáveis. Muito mais, aliás, que seus vizinhos do Haiti, Jamaica e República Dominicana. Mas o artigo até que é tranqüilo, pragmático e realista. Melhor que as reportagens da Veja. Quem diria: um artigo de Maílson da Nóbrega um dia seria mais jornalismo que o jornalismo...

VQP - Cite a New Yorker quando chupinhá-la

Na sua matéria de uma página sobre a polêmica em torno da língua da tribo pirahã, seria educado da parte de Veja: 1) não comprar completamente a tese, polêmica e contestada por muitos, de Daniel Everett, só porque ela rebate uma teoria científica elaborada por Noam Chomsky. 2) Citar que chupinhou a matéria da New Yorker. Ao menos citaram Chomsky sem nenhum impropério do lado...Em tempos de web e blogs, na sexta-feira quem se interessava pelo assunto já tinha ido na fonte original...

VQP - Agora e na hora de nossa morte - 2

Outro caso de obituários grosseiro da Veja


“O artista plástico americano Sol LeWitt, expoente da arte conceitual, um modismo dos anos 60 segundo o qual a idéia por trás de uma obra é tão ou mais relevante do que a sua realização final. Esse blablablá teórico não era levado em conta pelos compradores das pinturas de LeWitt, que gostavam mesmo era das cores fortes de seus murais com motivos geométricos. Dia 8, aos 78 anos, de câncer, em Nova York.”

Alguém ainda precisa de Veja Q Porcaria?

Quando comecei a analisar a Veja lá atrás, em 2002, não era banal a revista ser considerada exemplo de jornalismo parcial e mal intencionado. Hoje, olhem este post do blog Econominimo:

"Até tu, Economist?

Até a celebrada “The Economist” tem seus dias de “Veja”. No recente e extenso relatório sobre o Brasil, o correspondente Brooke Unger, além dos entrevistados citados nas próprias reportagens, lista os especialistas que ouviu para compor seus textos.

Mas, engraçado, aqueles que, procurados por Unger, não rezaram pela cartilha neoliberal da publicação, mesmo perdendo até mais de uma hora em conversas pessoais com o correspondente, ficaram de fora – não só das reportagens como também das menções no final do relatório.

Imparcialidade é isso."

Esta certo que ainda tem muita gente que acredita na revista, que segue a batida distorcida com que ela trata muitos assuntos, e que esta vai muito bem de publicidade...mas sinceramente, quem ainda precisa de uma crítica que a leve a sério, nesta altura do campeonato?


terça-feira, abril 17, 2007

FHC: o que fez e o que faria diferente

por ele mesmo, em inglês, no Miami Herald

O que fez:

In democracy, we made progress. I tried to reinforce institutions; democracy requires institutions. What is still lacking in Brazil in terms of democracy is not institutions. It is a more difficult thing. It is civic culture: the respect of the law.

Secondly, I consolidated economic stabilization. After the stabilization of the economy, we suffered an enormous financial crisis. We tried not to just look at the economy but to look at the people, education, agrarian reform and health.

O que deveria ter feito diferente:

As to whether I would do something differently? Yes, it would have been possible to float the exchange rate in 1998. Maybe I would have started the social program earlier.

I could also have put more energy into political reform.

Tradução: o câmbio estava sobrevalorizado em 1998, e sim, que maçada não termos pensado em um bolsa Família mais amplo antes do PT. Custaria tão pouco ter o apoio das massas e não parecer tão elitista...

PS: Após a histeria da eleição, e um ar conformado com o fato de Lula estar adquirindo um peso tão grande, FHC parece na entrevista mais sereno e ponderado: http://www.miamiherald.com/103/story/73571.html

segunda-feira, abril 09, 2007

Vai entender...

É difícil, e dispensável, entender a mente de Sérgio Martins. Fez uma matéria sobre novas cantoras. Muito legal, Veja dando espaço para um mundo de nomes novos, e cultura brasileira. Abordou várias delas. Deu destaque para cinco e citou várias outras. Nenhuma menção a Céu, talvez a mais importante das jovens cantoras de linhagem mais moderna, pop ou contemporânea e das que eu ouvi, a melhor de todas, anos luz a frente da Mariana Aydar, por exemplo, que está na matéria (anos luz mais conhecida que as outras sob a linhagem "Marisa Monte"). Não faz sentido justifcar por tempo, porque cita o CD de Roberta Sá, que é de 2005. E o estranho e gratuito ataque ao Seu Jorge inserido meio de caco, chamando-o de "pagodeiro". O registro do espanto com a não citação de Céu pela Veja, na comunidade de fãs da moça no Orkut:
http://www.orkut.com/CommMsgs.aspx?cmm=470215&tid=2525498588961829518&start=1

quinta-feira, março 29, 2007

Um pouco de música

Anda faltando música e outras coisas mais neste blog. Sexta, assisti o show do enérgico Tom Zé e não escrevi nada. Domingo, vi o complexo documentário "Santiago" de João Moreira Salles, que tem material para 10 tratados sobre estética, documentário, relações de classe ou psicanálise. E não escrevi nada, e sigo não escrevendo. Bem, o show do Tom Zé já foi, e sabe-se lá quando vão passar a sessão de descarrego do Salles. Vale dizer, um corajoso auto-retrato da elite brasileira. Ele disse que tinham que começar a filmar a elite brasileira e começou por ele mesmo. Legal.

Mas chega de escrever que papo de sambista é samba. O link da rádio:
http://www.4shared.com/file/13028053/f7b24606/coqueiro_velho_2.html

terça-feira, março 27, 2007

VQP - O índice "Marquinhos"

Na segunda-feira da semana passada, houve uma reunião dos gerentes da Abril no Hotel Meliá, em São Paulo. O presidente do grupo, Roberto Civita disse que o Brasil “não era desculpa” para o grupo não crescer. Que o país estava no rumo certo. Que não era o que eles queriam, e que poderia estar crescendo mais rápido, mas que era o rumo certo.

Este é o tom da Carta ao leitor desta semana. Óbvio que por um lado ela beira o ridículo caipira, com seu “índice Starbucks”.

“Imaginemos agora um Índice Starbucks. Seria um indicador baseado no desempenho das cafeterias da rede americana instalada em quase quarenta países e serviria para medir a capacidade empreendedora de cada uma dessas nações, bem como o potencial de consumo de suas populações. Aonde se quer chegar? A uma informação publicada na seção Holofote desta edição. No espaço de uma simples nota, há uma notícia que esclarece muito sobre o estado atual da economia brasileira: as duas primeiras lojas da Starbucks abertas no país em dezembro, ambas em São Paulo, já ocupam o topo do ranking de atendimento a clientes das cafeterias da rede mundial.”

Olha, só dá para entender isto como besteirol intencional, para este e outros caírem de patinho e a revista gerar comentário. Eles estão falando sério? Quando saiu aquela matéria imensa, de capa, sobre a chegada da Starbucks no Brasil, muita gente no meio disse: “não pode ser, isto é jabá”. Mas eles são tão marquinhos que não sei...Eles acham que duas lojas novidadeiras na região sudoeste de São Paulo simbolizam qualquer coisa? Nossa...

“Não poderia existir momento mais propício para que Brasília desse um empurrão pondo para andar as reformas tributária, previdenciária e trabalhista e, assim, arrancar os grilhões que ainda aprisionam a economia. Isso ajudaria a levar o Índice Starbucks a todo o parque produtivo brasileiro com as previsíveis e extraordinárias conseqüências para a paz social e a elevação do padrão de vida de todos os brasileiros.”

Olhe. Existem mudanças tributárias (mais), previdenciárias (algumas) e trabalhistas (menos) que provavelmente seriam interessantes. Simplificar a tributação e cobrar no destino, não na origem do produto seria justo, mas isso sempre é barrado por São Paulo. Aprovar idade mínima de aposentadoria de 65 anos para a maioria das carreiras com nível superior e em alguns setores do funcionalismo público, por exemplo, poderia ser uma idéia aceitável, mas os neoliberais feitores que defendem a reforma querem descê-la sobre o lombo dos mais pobres...O problema no “rumo certo” que se quer com estas reformas sem se pronunciar é regredir os custos e condições da mão-de-obra brasileira aos níveis da indiana e chinesa. É o tipo de projeto de país que grande parte da nossa elite (lógico, há exceções) está viciada em pensar. Ela não quer, nem acredita, no desenvolvimento em parceria, e para, melhorar a vida da maior parte da população. Dureza...

VQP - 3 artigos sobre insegurança

A Veja já foi definida uma vez como a revista “da classe média assutada”. Três artigos, de Lya Luft, Diogo Mainardi e Reinaldo Azevedo, tratam de violência. É claro que a violência no Brasil não é normal. E é claro que ela assusta a classe média. Porque embora os índices de mortes por homicídio entre a classe média não sejam muito acima dos de primeiro mundo, os crimes contra o patrimônio e a ameaça de violência nos espaços públicos são constantes. E os efeitos da violência não estão só no ato, mas também no medo de que o ato possa ocorrer, na sua possibilidade. O desafio de escrever, e tratar, sobre violência é manter a indignação, porque de fato é absurdo, mas não cair na sua versão vazia de basta que não compreende e que a reforça. Basicamente, realimentando o paradoxo de que quem alimenta as estatísticas da violência, a morte de jovens de periferias, e quem mais sofre com as políticas que supostamente deveriam combater a violência (afinal, todos sabemos que o que realmente se advoga é menos reduzi-las e mais confiná-la aos seus limites geográficos e sociais “aceitáveis”). Eu vou passar de comentar o artigo do Azevedo, com duas exceções: 1) Ele não resiste a tentação de atacar a esquerda em todos os seus textos...2)Embora ele coloque ressalvas, nas passagens sobre o humanismo, a tese de que a moral só pode advir de uma religião é mais um capítulo do preconceito e da incapacidade de compreensão que os religiosos têm dos ateus. Proponho a seguinte pesquisa ignóbil: analisar a moral e a criminalidade em dois países vizinhos do Leste Europeu, recém saídos do comunismo e ingressos na União Européia: a de maioria atéia República Tcheca e a fortemente católica Polônia. Para quem não tiver mais nada, nada o que fazer...

VQP - Briga grande em notinha

Atente para esta inocente nota da seção Radar:

“Curioso
A Associação Brasileira de TV por Assinatura (ABTA) quer proibir no Cade uma promoção conjunta da TVA e da Telefônica que oferece um pacote de TV por assinatura e banda larga por preços reduzidos. No caso, é curioso que a associação se volte contra um associado, considerando que é exatamente isso que outro associado, a NET, vem fazendo com outra tele, a Embratel, há muito tempo. Com todo o apoio da entidade.”

A nota está correta. Só falta informar que a TVA é uma empresa em processo de venda, da Abril para a Telefônica. E que esta venda é estratégica para o grupo Abril saldar suas dívidas. E que a briga em torno da convergência da internet+telefonia+tv por assinatura que coloca de um lado do ringue a Abril+TVA+Telefônica(Speedy e Terra) e do outro a Globo+NET (Virtua)+Embratel+Sky e Direct TV (News Corp) é a mais importante briga do setor de comunicações do país...Ao menos na matéria “calhau” sobre o Canal Fiz que será lançado pela Abril, Veja informa que é do mesmo grupo que a publica.

VQP - Sonegando informação...

A matéria de capa da Veja é boa, noves fora fazer baião de dois para a instalação da CPI do Apagão Aéreo, o que é do jogo e do direito. Ela só tem um porém, que é um grande porém. Por que fingir que o problema da infraero e da falta de investimentos em infra-estrutura portuária é apenas de corrupção e má gestão, e esconder que o governo contingência recursos bilionários arrecadados de taxas cobradas dos consumidores, para fazer superávit primário? Ou seja, que o próprio setor gerou receita, que deveria resolver seus problemas, mas que esta foi desviada para pagar juros? Por que na matéria “A infraero não informa” a Veja não informa isso...


Sonegar informação para defender de forma exagerada seu fanatismo neoliberal também ocorre na matéria “Maior, mas do mesmo tamanho” sobre o PIB brasileiro. Último parágrafo da matéria:

“Os novos cálculos deixaram o Brasil ligeiramente melhor na fotografia internacional. Mas nem por isso desapareceram as travas que emperram o desenvolvimento. Ou, pior, como temem alguns analistas, o governo pode se inebriar com o seu "quase pibão" e enterrar de vez as reformas sem as quais não haverá como o país entrar em rota de crescimento duradouro. O "novo PIB" dá a dimensão do drama: a gastança pública foi maior do que se imaginava. Já a poupança e os investimentos ficaram menores. (grifo meu) E aí não há milagre estatístico: sem poupança e sem investimentos, o "pibinho" nunca será "pibão".”

Sobre o trecho em negrito, duas coisas: não se sabe como Veja diz, a partir do PIB, que os gastos do governo cresceram, já que o novo PIB não afeta os números absolutos dos gastos do setor público, e os reduz em termos relativos (carga tributária/PIB), informação sonegada aos leitores da revista porque contraria seu discurso ideológico. Assim como foi sonegada a queda da relação dívida PIB, provavelmente a conseqüência mais importante do novo número, junto com ele forçar os ortodoxos a refazerem suas contas de “PIB potencial” (o máximo de crescimento possível do país sem afetar a inflação) o que tem efeito nos debates sobre a taxa de juros.

sexta-feira, março 23, 2007

VQP - Azevedo X Azenha

Reinaldo Azevedo semana passada teve uma "briga de blogs" com Pedro Doria, do nominimo, em torno da tradução da fala do papa do latim em torno de casamento, a "chaga" X "praga" . Estava certo. Entende muito de latim, catolicismo e gramática. Parabéns.
Esta semana, e parece que quem começou foi Azevedo, mas, felizemnte, perdi o primeiro caítulo, começou um "tirotexto" (tiroteio de texto, desculpe a infâmia...) com Luiz Carlos Azenha.
Não é nada edificante. Mas enfim, como inventei-me, faz tempo, de fazer isso, vão os links para quem estive disposto:
Azenha:
http://viomundo.globo.com/site.php?nome=MinhaCabeca&edicao=725
Azevedo:
http://veja.abril.com.br/blogs/reinaldo/

Óbvio, e sinceramente, concordo muito mais com a visão de mundo, de jornalismo e postura do Azenha.

Idéias que provocam...

Bem, citando de cara o "conflito de interesses". Esta entrevista do filósofo Paulo Arantes na Carta Maior é por conta do lançamento do seu livro, Extinção, pela editora em que eu trabalho, a Boitempo. Mas vale muito, muito a pena indicá-la. Mesmo sem concordar com tudo, é o tipo de raciocínio rigoroso e criativo que provoca e estimula a questionar lugares-comuns e falsas dicotomias. A parte sobre as guerras de Bush que existem justamente para não serem vencidas nem perdidas, mas eternas, é sensacional.

http://agenciacartamaior.uol.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=13774

quinta-feira, março 22, 2007

Coluna de Clóvis Rossi de hoje

Dois temas importantes: a maluquice de Lula chamar os usineiros de "heróis" (está com esta mania agora...deve estar assistindo o ótimo seriado Heroes...). E a quebra de contrato, pedida pelos lobbys dos bancos, que reduziram os rendimentos do FGTS e da poupança, para protegere os fundos de renda fixa (uma inversão de valores inacreditável).

Os heróis de Lula


SÃO PAULO - Primeiro, o governo Luiz Inácio Lula da Silva mexeu na TR (a Taxa Referencial de juros), de tal forma que os rendimentos da poupança serão reduzidos.
Alguém aí ouviu algum outro alguém gritar "calote", "tunga", "quebra de contrato" ou algo parecido? Ou só silêncio?
Depois, constatou-se que, graças à mesma mágica besta do governo, também o FGTS será afetado, passando a ter rendimento inferior ao da inflação (ou seja, perda de renda, em bom português), dependendo do nível da taxa de juros.
De novo, gritos enfurecidos de "calote", "tunga", "quebra de contrato"? Nadica de nada, salvo uma reclamaçãozinha chocha do ministro do Trabalho, Luiz Marinho, mais por não ter sido ouvido do que pela tunga. Reclamação que, de resto, só comprova uma vez mais que, no governo do Partido dos Trabalhadores, trabalhador não é ouvido nem cheirado, por mais que o presidente da República ainda se considere torneiro mecânico, profissão que não exerce há pelo menos um quarto de século.
Agora, experimente você mencionar "calote" (não necessariamente para defendê-lo) em relação à dívida pública. Cai-lhe o mundo em cima, por baixo, por baixo.
Ficamos então assim: "redutor" na TR, afetando o pequeno investidor e o assalariado, pode. Já o rendimento do grande investidor, que detém os papéis do governo, é absolutamente intocável, sagrado. Foi assim sempre, mas se tornou quase vício, verdadeiro dogma religioso no governo Lula, que fez a opção preferencial pelo mercado financeiro, ao qual dedica anualmente algo em torno de 7% ou 8% do PIB.
Dia virá em que Lula chamará de "heróis" o pessoal do mercado, como fez anteontem com os usineiros, no mesmo dia em que fiscais do trabalho encontravam trabalhadores da cana atuando em condições "degradantes".

quarta-feira, março 21, 2007

Diálogo maluco sobre o novo PIB by IBGE

Começou como um debate sobre economia. Acalorado. Aí, no meio do caminho, o IBGE aumenta o PIB em mais de 10%. E as bases do debate vão para o ralo. Aí eu digo:

Tem mais , a gente discute, discute, aí vem o IBGE, muda tudo, e a gente descobre que a vida é numerolo...ops, metodologia...De ontem para hoje acordamos 10% mais ricos, devemos ter crescido mais que alguém além do Haiti, e a dívida/PIB foi de 51,5% para 46,5%. 10% de crescimento em um dia? Seria o espetáculo (no sentido teatral do termo) do crescimento? abração e risos...

Resposta

Zé, tô tentando entender essa parada faz umas três horas. Minhas dúvidas:
Se é assim, por qual motivo o IBGE foi tão estúpido de não fazer isso antes?
Será que isto não poderá ser visto como manipulação?
Caso esteja correto, como me parece que está, será que finalmente vamos entrar em um novo ciclo de crescimento, novamente sem inflação? (não teve inflação no milagre)

Como fica a questão do investment grade?
E o PIB potencial?
Quer dizer então que a carga tributária é menor do que a gente pensava e mesmo assim trava o país? Enfim. Dúvidas, dúvidas e dúvidas.
E o meu conhecimento em economia não me permite ir além delas.To tentando ler mais a respeito. Abração

tréplica

Bem, se a carga tributária é mais baixa em relação ao PIB e ele está crescendo neste ritmo, ela não trava tanto o país assim...ao menos como se pensava...Tenho as mesmas dúvidas. Estou esperando alguém vir com uma c´ritica demolidora para começar a entender o que ocorre. Deixa eu te adicionar outras duas dúvidas:

1) Quais são os padrões internacionais de cálculo do PIB? Nos aproximamos deles, nos afastamos, ou é o samba do FMI doido, cada país tem seu critério?

2) O que os gringos vão pensar quando todos os números da economia brasileira forem diferentes amanhã..."Uau", "uai" ou "how" ?

A emenda 3 e o jornalismo de resultado

A discussão em torno da emenda 3, que proíbe fiscais do trabalho de aplicarem multas em empresas, e passa esta atribuição aos juízes do trabalho, vetada por Lula e defendida pela oposição, tem escancarado algumas máscaras. A matéria de ontem do Jornal da Globo sobre o tema era o ápice da desinformação e cinismo. Do governo à oposição, todos fingiam se tratar da questão de um "princípio jurídico" da função do fiscal, quando todos os entendidos sabem que não é esta a questão ou o que está em jogo (todo mundo ali cumpria um script...). Se fiscal não pode aplicar multa em sua área específica de competência, só juiz, policial não poderia prender em flagrante, nem guardinha da CET aplicar multa, e teríamos que ter um monte de juízes pelas ruas fazendo o policiamento...
O que está em jogo é a tentativa dos defensores da medida, o que inclui as grandes empresas de mídia, de impedirem a fiscalização (pouca) da justiça do trabalho contra a "pejotização" de empregados, que acontece inclusive nas empresas de comunicação, por exemplo, com grande parte dos repórteres e apresentadores da Globo (o boato em Brasília é que a própria empresa fez lobby pela emenda). Atuação em causa própria. E pouco se importando com as implicações disso, por exemplo, no combate ao trabalho escravo. Se os fiscais forem proibidos de atuar, acabam as missões para libertação de escravos em fazendas. É isso aí, a aparente defesa das relações (pós) modernas de trabalho defendem a escravidão. É a cara do projeto conservador brasileiro. É a cara do PFL e do PSDB fazer de algo assim uma prioridade.
Lula fez bem em vetar a emenda, mas nitidamente o governo não está jogando pesado em impedir a tentativa da oposição de derrubá-la, porque se tivesse já tinha acabado com esta história.
Para entender melhor o caso, leiam o Blog de Leonardo Sakamoto: http://blogdosakamoto.blig.ig.com.br/
E este artigo interessante sobre o caso, que saiu na Folha de S. Paulo de hoje, de Elio Gaspari:
O fantasma jurídico da pessoa física
Na mesma Folha de hoje, um exemplo da importância do trabalho dos fiscais. Blitz nos canaviais do interior de São Paulo, contra condições abusivas de trabalho de boiás-frias, nas "glamourizadas" plantações de cana-de-açucar. E com este tipo de coisa que a emenda 3 quer "acabar".