Era um relógio muito à frente do seu tempo.
segunda-feira, julho 12, 2004
domingo, julho 11, 2004
SÃO PAULO MALUF
Na segunda-feira, dia 5 de julho, o candidato do Partido Progressista à prefeitura de São Paulo, o ex-prefeito Paulo Maluf, protagonizou uma pequena jam jazzística com um grupo de jornalistas. Vários deles tentaram ditar o ritmo da música, batendo no bumbo de suas várias acusações de corrupção, mas o solista estava impossível. Uma de suas melhores frases: “Eu nunca menti na minha vida pública.”. Outra “eu que sempre fui um homem democrático...”. Ele estava hilário e tinha respostas para tudo, que falava sem hesitar, por mais que soassem absurdas.
Os jornalistas que o entrevistaram eram experientes, preparados e tentaram de tudo. Relembrar que Maluf foi contra as diretas, o minhocão, a águas espraiadas, Paulipetro, dinheiro na Suíça, isolado politicamente etc...
Maluf é o Freddie Krueger da política paulista. Sempre ressurge quando se acha que ele já está acabado. E os 20% de eleitores fiéis que ele carrega com ele, crê-se que poderão mudar de idéia com denúncias de corrupção. E não dá certo. E os jornalistas são crentes que o encurralarão. Mas não conseguem.
Falta tentar entendê-lo e quem vota nele pelo ponto de vista de visão do mundo que estas pessoas tem. Entender o que há de ideologia que resiste e ignora as denúncias, que independe delas. A questão de porque Maluf ainda tem 20% dos votos não tem nada a ver com corrupção, mas com um fato mais duro e difícil de encarar.
Maluf representa uma mentalidade autoritária, do fazer obras, do capitalismo do automóvel desenfreado, da visão privada e egoísta da propriedade, e violenta entre as classes sociais. Maluf pratica uma visão de relação estado-sociedade, marcada pelo fisiologismo, que apesar de absurda e anti-democrática, ainda é tão corrente que o próprio PT se apropriou desta lógica até nas suas relações internas, e o PSDB também. E uma visão de cidade onde o “progresso”, está relacionado a um desenvolvimento industrial e a uma especulação imobiliária predatória. Idéias que estão na identidade de São Paulo, uma das cidades que mais cresceu no mundo no século XX e que seus 450 anos sem grandes reflexões só reforçaram. O elogio ao gigantismo, ao “não pode parar”, ao lucro desenfreado e ao luxo inconseqüente do qual a região da Faria Lima/Berrini é o exemplo máximo para detratores e defensores do modelo.*
É bobagem pensar em Maluf como um exotismo. Ele tem fortes laços com setores da economia (imobiliário, empreiteiras), categorias (policiais, comerciantes, taxistas) e mais que isso, com o imaginário da cidade cruel hiper-capitalista e exploradora sem dó de imigrantes e migrantes. Apaixonada por soluções falsas e publicitárias para problemas complexos, como o Cingapura. Cheia de radialistas dispostos a falar leviandades no ar, ou mesmo alugar este espaço. Com classe média e alta alienadas da situação dos serviços de saúde e educação, só se interessando por buracos, não pagar multas de radares e tirar seu naco do Estado. Com pouco espaços e pouca convivência pública.
Maluf, com sua cara-de-pau infinita e esperteza nas repostas, entra nessa campanha como franco-atirador, um radical livre da sua própria causa pessoal e conservadora. E quem jogará a primeira pedra? O publicitário de Marta Suplicy era o seu, o dele trabalhava na prefeitura até setembro e o vice de Serra era malufista de carteirinha. Serra e os tucanos querem se vender como “competente”, mote de Maluf, e Duda Mendonça, segundo a Folha de S. Paulo, quer vender Marta como “fazedora de obras bem-feitas”, uma das coisas menos importantes no seu governo. A identidade conservadora de São Paulo “não pode parar”, crêem os marqueteiros, que antes de tudo, são especialistas em vender-se, mais do que em vender alguma coisa.
Um exemplo do problema Maluf é sua resposta sobre os CEUs. Marta irá defender o projeto do seu governo. Serra irá atacá-lo dentro da estratégia do PSDB. PT X PSDB, a monótona briga em um tom da atual política nacional. Maluf que não é burro e não tem compromisso com a menor forma de coerência disse que “vai analisar” e que se for ruim, caro demais, não fará. Se for bom, promete que fará não vinte, mas 60 CEUs espalhados pela periferia. Respondendo assim passa a imagem de sensato e responsável, agradando a classes média e alta que odeiam os CEUs, e também a população das periferias onde tem CEU e onde não tem mas se sonha com eles.
Que a arrogante e hiper-confiante direção paulista do PT, que soltou o monstro na arena, achando que era ótimo para ela, embale a criança. No mundo feio da política, sabe-se que o PT no planalto tinha meios de barrar a candidatura de Maluf pelo PP. Mas que preferiu e torceu para que saísse candidato, por calcular que pode tirar Serra do segundo turno, onde então Maluf perderia para Marta Suplicy. A ver, já que há o risco de Marta ter que suar para ir para o segundo turno, com o cenário de Erundina roubando seus votos à esquerda, e Maluf e Serra adiante dela. O PT com o discurso Duda e atitude atual, que prefere usar o oportunismo do que correr o risco de enfrentar e mudar uma concepção de cidade, que enfrente o teste da sua estratégia. No caso, o risco é todo dos moradores de São Paulo.
*Sobre a história da região Berrini/Faria Lima, como o poder público gastou ali uma fortuna, como as comunidades que lá viviam em favelas tiveram suas vidas destruídas, como lucros enormes foram feitos e como a especulação imobiliária construiu um “progresso urbano” sem pé nem cabeça, a editora em que trabalho, a Boitempo, tem um belíssimo livro escrito pela arquiteta Mariana Fix chamado “Parceiros da Exclusão”. Recomendo.
Na segunda-feira, dia 5 de julho, o candidato do Partido Progressista à prefeitura de São Paulo, o ex-prefeito Paulo Maluf, protagonizou uma pequena jam jazzística com um grupo de jornalistas. Vários deles tentaram ditar o ritmo da música, batendo no bumbo de suas várias acusações de corrupção, mas o solista estava impossível. Uma de suas melhores frases: “Eu nunca menti na minha vida pública.”. Outra “eu que sempre fui um homem democrático...”. Ele estava hilário e tinha respostas para tudo, que falava sem hesitar, por mais que soassem absurdas.
Os jornalistas que o entrevistaram eram experientes, preparados e tentaram de tudo. Relembrar que Maluf foi contra as diretas, o minhocão, a águas espraiadas, Paulipetro, dinheiro na Suíça, isolado politicamente etc...
Maluf é o Freddie Krueger da política paulista. Sempre ressurge quando se acha que ele já está acabado. E os 20% de eleitores fiéis que ele carrega com ele, crê-se que poderão mudar de idéia com denúncias de corrupção. E não dá certo. E os jornalistas são crentes que o encurralarão. Mas não conseguem.
Falta tentar entendê-lo e quem vota nele pelo ponto de vista de visão do mundo que estas pessoas tem. Entender o que há de ideologia que resiste e ignora as denúncias, que independe delas. A questão de porque Maluf ainda tem 20% dos votos não tem nada a ver com corrupção, mas com um fato mais duro e difícil de encarar.
Maluf representa uma mentalidade autoritária, do fazer obras, do capitalismo do automóvel desenfreado, da visão privada e egoísta da propriedade, e violenta entre as classes sociais. Maluf pratica uma visão de relação estado-sociedade, marcada pelo fisiologismo, que apesar de absurda e anti-democrática, ainda é tão corrente que o próprio PT se apropriou desta lógica até nas suas relações internas, e o PSDB também. E uma visão de cidade onde o “progresso”, está relacionado a um desenvolvimento industrial e a uma especulação imobiliária predatória. Idéias que estão na identidade de São Paulo, uma das cidades que mais cresceu no mundo no século XX e que seus 450 anos sem grandes reflexões só reforçaram. O elogio ao gigantismo, ao “não pode parar”, ao lucro desenfreado e ao luxo inconseqüente do qual a região da Faria Lima/Berrini é o exemplo máximo para detratores e defensores do modelo.*
É bobagem pensar em Maluf como um exotismo. Ele tem fortes laços com setores da economia (imobiliário, empreiteiras), categorias (policiais, comerciantes, taxistas) e mais que isso, com o imaginário da cidade cruel hiper-capitalista e exploradora sem dó de imigrantes e migrantes. Apaixonada por soluções falsas e publicitárias para problemas complexos, como o Cingapura. Cheia de radialistas dispostos a falar leviandades no ar, ou mesmo alugar este espaço. Com classe média e alta alienadas da situação dos serviços de saúde e educação, só se interessando por buracos, não pagar multas de radares e tirar seu naco do Estado. Com pouco espaços e pouca convivência pública.
Maluf, com sua cara-de-pau infinita e esperteza nas repostas, entra nessa campanha como franco-atirador, um radical livre da sua própria causa pessoal e conservadora. E quem jogará a primeira pedra? O publicitário de Marta Suplicy era o seu, o dele trabalhava na prefeitura até setembro e o vice de Serra era malufista de carteirinha. Serra e os tucanos querem se vender como “competente”, mote de Maluf, e Duda Mendonça, segundo a Folha de S. Paulo, quer vender Marta como “fazedora de obras bem-feitas”, uma das coisas menos importantes no seu governo. A identidade conservadora de São Paulo “não pode parar”, crêem os marqueteiros, que antes de tudo, são especialistas em vender-se, mais do que em vender alguma coisa.
Um exemplo do problema Maluf é sua resposta sobre os CEUs. Marta irá defender o projeto do seu governo. Serra irá atacá-lo dentro da estratégia do PSDB. PT X PSDB, a monótona briga em um tom da atual política nacional. Maluf que não é burro e não tem compromisso com a menor forma de coerência disse que “vai analisar” e que se for ruim, caro demais, não fará. Se for bom, promete que fará não vinte, mas 60 CEUs espalhados pela periferia. Respondendo assim passa a imagem de sensato e responsável, agradando a classes média e alta que odeiam os CEUs, e também a população das periferias onde tem CEU e onde não tem mas se sonha com eles.
Que a arrogante e hiper-confiante direção paulista do PT, que soltou o monstro na arena, achando que era ótimo para ela, embale a criança. No mundo feio da política, sabe-se que o PT no planalto tinha meios de barrar a candidatura de Maluf pelo PP. Mas que preferiu e torceu para que saísse candidato, por calcular que pode tirar Serra do segundo turno, onde então Maluf perderia para Marta Suplicy. A ver, já que há o risco de Marta ter que suar para ir para o segundo turno, com o cenário de Erundina roubando seus votos à esquerda, e Maluf e Serra adiante dela. O PT com o discurso Duda e atitude atual, que prefere usar o oportunismo do que correr o risco de enfrentar e mudar uma concepção de cidade, que enfrente o teste da sua estratégia. No caso, o risco é todo dos moradores de São Paulo.
*Sobre a história da região Berrini/Faria Lima, como o poder público gastou ali uma fortuna, como as comunidades que lá viviam em favelas tiveram suas vidas destruídas, como lucros enormes foram feitos e como a especulação imobiliária construiu um “progresso urbano” sem pé nem cabeça, a editora em que trabalho, a Boitempo, tem um belíssimo livro escrito pela arquiteta Mariana Fix chamado “Parceiros da Exclusão”. Recomendo.
quarta-feira, julho 07, 2004
DOIS ENCONTROS COM DEUS EM UM FIM-DE-SEMANA
A festa havia sido fraca. Pouco público; quase prejuízo. Saio do Vale do Anhangabaú até o carro. Chego no guardador, dono da rua, negro, gordinho, nos seus quase cinqüenta, jaqueta, camisa social, gravata e tênis prateado cheio de estilo. Comento que a noite não foi como eu esperava, meio na desculpa por ter empatado a dele, afinal, se fosse um sucesso, muitos carros, muito dinheiro (“já fiz festa de quinta com carro estacionado entre o Viaduto Santa Ifigênia e o do Chá”). Ele, meio alto na madrugada, olhos arregalados, diz que não foi isso. Sentencia:
- Você foi “boicotado”. Me escuta, me escuta, “boicotado”. Eu estava aqui e eu vi tudo. Boicotado. Entende?
Digo que sim. Acho que sim.
- Tem gente querendo ofuscar teu talento, tua estrela, fazendo trabalho. Olha, eu to sem telefone, mas olha...Porque você acha que eu tô assim, bacana, todo mundo me dá dez, me dá cinco.
Ué, porque você guarda os carros. Pensei, mas não falei.
- Você vêm aqui na quinta e a gente conversa.
O homem não deixa eu ir embora. Eu que não vou provocar o sujeito. Quando finalmente me vou, ele me dá um longo e forte abraço, para “sentir energia”. E faz um X com os braços sobre seu peito.
- Eu sou do candomblé. Aparece aqui na quinta e a gente conversa.
Domingo de manhã vou jogar basquete. Pouca gente, então treino arremessos livres. Séries de 10. Vinha sensacional em uma delas acertando nove seguidos. Erro o último deles e urro de raiva, por estragar uma série que seria perfeita.
Na quadra ao lado, skatistas estacionam seus veículos embaixo da tabela e se reúnem para jogar. São sete. Seco, chego junto para uma partida. Outro colega de parque, basqueteiro experiente, desconfia da turma e prefere seguir sentado.
Quatro contra quatro, em meia quadra é um tanto exótico, mas tudo bem. Dividimos os times. O adversário começa a se reunir em círculo. Acho que vão conversar algo do jogo, mas olho de novo e meu time está se juntando a roda também. Só eu estou de fora.
- Todo mundo aqui já esteve no fundo do poço, no abismo das drogas e se salvou em Jesus Cristo, e hoje estamos aqui curtindo o dia.
Diante da minha hesitação a se juntar à roda, quem a chamou se vira para mim e pergunta:
- Você crê em Deus?
Não, eu sou ateu. Pensei, e falei.
- Você gostaria de participar desta oração?
Não. Pensei, e falei.
Eles começaram a orar, enquanto eu brincava com a bola. Cada um na sua, pensei. Ainda bem que falei que sou ateu, pois acho aproveitar para falar isso enquanto posso. Sabe-se lá até quando haverá este luxo, em um mundo de Bin Laden, Bush, Marcelo Rossi e Garotinho. Não vou questionar a fé deles, ainda mais uma que ajudou a salvá-los do abismo, como disseram e como diziam as marcas no corpo de alguns deles.
Mas basquete não sabiam jogar e isso estava mesmo na cara. E o único ateu, mesmo estando longe de ser craque, definiu fácil a partida, isso com uma dor no joelho esquerdo, que insistia em piorar.
No dia seguinte, fui mancando ver o ortopedista sobre a dor no joelho. Tendinite. Um mês sem basquete, caminhada, mesmo dançar. Veredicto médico.
Mas vai saber...
Bem, de qualquer jeito, é só quarta-feira. Em caso de dúvida, ainda há tempo de aparecer no Anhangabaú na quinta...
A festa havia sido fraca. Pouco público; quase prejuízo. Saio do Vale do Anhangabaú até o carro. Chego no guardador, dono da rua, negro, gordinho, nos seus quase cinqüenta, jaqueta, camisa social, gravata e tênis prateado cheio de estilo. Comento que a noite não foi como eu esperava, meio na desculpa por ter empatado a dele, afinal, se fosse um sucesso, muitos carros, muito dinheiro (“já fiz festa de quinta com carro estacionado entre o Viaduto Santa Ifigênia e o do Chá”). Ele, meio alto na madrugada, olhos arregalados, diz que não foi isso. Sentencia:
- Você foi “boicotado”. Me escuta, me escuta, “boicotado”. Eu estava aqui e eu vi tudo. Boicotado. Entende?
Digo que sim. Acho que sim.
- Tem gente querendo ofuscar teu talento, tua estrela, fazendo trabalho. Olha, eu to sem telefone, mas olha...Porque você acha que eu tô assim, bacana, todo mundo me dá dez, me dá cinco.
Ué, porque você guarda os carros. Pensei, mas não falei.
- Você vêm aqui na quinta e a gente conversa.
O homem não deixa eu ir embora. Eu que não vou provocar o sujeito. Quando finalmente me vou, ele me dá um longo e forte abraço, para “sentir energia”. E faz um X com os braços sobre seu peito.
- Eu sou do candomblé. Aparece aqui na quinta e a gente conversa.
Domingo de manhã vou jogar basquete. Pouca gente, então treino arremessos livres. Séries de 10. Vinha sensacional em uma delas acertando nove seguidos. Erro o último deles e urro de raiva, por estragar uma série que seria perfeita.
Na quadra ao lado, skatistas estacionam seus veículos embaixo da tabela e se reúnem para jogar. São sete. Seco, chego junto para uma partida. Outro colega de parque, basqueteiro experiente, desconfia da turma e prefere seguir sentado.
Quatro contra quatro, em meia quadra é um tanto exótico, mas tudo bem. Dividimos os times. O adversário começa a se reunir em círculo. Acho que vão conversar algo do jogo, mas olho de novo e meu time está se juntando a roda também. Só eu estou de fora.
- Todo mundo aqui já esteve no fundo do poço, no abismo das drogas e se salvou em Jesus Cristo, e hoje estamos aqui curtindo o dia.
Diante da minha hesitação a se juntar à roda, quem a chamou se vira para mim e pergunta:
- Você crê em Deus?
Não, eu sou ateu. Pensei, e falei.
- Você gostaria de participar desta oração?
Não. Pensei, e falei.
Eles começaram a orar, enquanto eu brincava com a bola. Cada um na sua, pensei. Ainda bem que falei que sou ateu, pois acho aproveitar para falar isso enquanto posso. Sabe-se lá até quando haverá este luxo, em um mundo de Bin Laden, Bush, Marcelo Rossi e Garotinho. Não vou questionar a fé deles, ainda mais uma que ajudou a salvá-los do abismo, como disseram e como diziam as marcas no corpo de alguns deles.
Mas basquete não sabiam jogar e isso estava mesmo na cara. E o único ateu, mesmo estando longe de ser craque, definiu fácil a partida, isso com uma dor no joelho esquerdo, que insistia em piorar.
No dia seguinte, fui mancando ver o ortopedista sobre a dor no joelho. Tendinite. Um mês sem basquete, caminhada, mesmo dançar. Veredicto médico.
Mas vai saber...
Bem, de qualquer jeito, é só quarta-feira. Em caso de dúvida, ainda há tempo de aparecer no Anhangabaú na quinta...
quinta-feira, abril 29, 2004
Os últimos serão os primeiros: finalmente
Lula se decepciona com o governo Lula
Hoje, com a frustração diante de um aumento de 20 reais no mínimo, após longas reuniões, repetidos adiamentos e a cara de angústia de Lula, parece que finalmente o próprio se decepcionou com o seu governo e se sente impotente diante das opções de política e equipe econômica que ele mesmo fez. Ser vaiado como foi esta semana, onde nasceu para a política, na sua base número 1, os metalúrgicos de São Bernardo, não é pouca coisa em termos psicológicos e de simbolismo. No aumento do salário mínimo, Lula deve sentir sua carreira e história política refém da sua equipe econômica e da conversão da conversão a direita que fez o PT após a eleição (como se não bastasse a que fez antes...). Infelizmente não acho que seja um sinal de mudança. Só dá um ar humano, de angústia, a tragicomédia da mesmice neoliberal que ao mesmo tempo raptou e foi raptada por este governo.
O "espírito da coisa" foi captado um pouco nesta charge de
Maurício Ricardo do site www.charges.com.br
http://charges.uol.com.br/vercharge.php?idcharge=1362&modo=som
Lula se decepciona com o governo Lula
Hoje, com a frustração diante de um aumento de 20 reais no mínimo, após longas reuniões, repetidos adiamentos e a cara de angústia de Lula, parece que finalmente o próprio se decepcionou com o seu governo e se sente impotente diante das opções de política e equipe econômica que ele mesmo fez. Ser vaiado como foi esta semana, onde nasceu para a política, na sua base número 1, os metalúrgicos de São Bernardo, não é pouca coisa em termos psicológicos e de simbolismo. No aumento do salário mínimo, Lula deve sentir sua carreira e história política refém da sua equipe econômica e da conversão da conversão a direita que fez o PT após a eleição (como se não bastasse a que fez antes...). Infelizmente não acho que seja um sinal de mudança. Só dá um ar humano, de angústia, a tragicomédia da mesmice neoliberal que ao mesmo tempo raptou e foi raptada por este governo.
O "espírito da coisa" foi captado um pouco nesta charge de
Maurício Ricardo do site www.charges.com.br
http://charges.uol.com.br/vercharge.php?idcharge=1362&modo=som
segunda-feira, abril 26, 2004
CURTAS E DICAS DOS PAPELOTES - PARA O CONTEÚDO INTEGRAL DO BOLETIM ASSINE A MAILING MANDANDO UM EMÍLIO PARA
assinar-papelotes@grupos.com.br
- Frase moralista para consumo populista: “No Brasil é fácil fazer piadas. Difícil é não ser tratado como palhaço.”
- Body Count: Sobre a Guerra do Iraque, a maneira mais macabra de acompanhá-la é por esta página da CNN, que traz atualizações constates do número de soldados mortos, com nome e foto deles. É injusto que não exista algo assim para os iraquianos. O site me lembra uma frase (mas não seu autor), que diz que guerra é: “Pessoas que não se conhecem matando uns aos outros, em nome de pessoas que se conhecem e não se matam”.
http://www.cnn.com/SPECIALS/2003/iraq/forces/casualties/
- Retomando nos papelotes o gosto pela publicação de letras de música, retomo com “Mãos”, uma parceria rap samba genial entre Mano Brown e Almir Guineto. Grande música presente no CD ‘Todos os pagodes” de Almir Guineto. As partes em samba estão em itálico
Mãos
Um role de Vemax
Um gole de Lê Chandon
Mãos pobres querem ter o que é bom
Mãos nordestinas me ensinou
Que mãos para trás neguinho
Não senhor!
As mãos de Tyson, ódio nocaute
As mãos do mal
Também usam esmalte
Mãos que apontam,
Mãos que delatam
Toda mão tem, mãos tremulas matam
Mãos na cabeça, o mão branca armou
Algemas, prendem a mão do sonhador
Mãos negras, sinfonia funk
As mãos do rap não usam Mon Blanc
Palma da mão, palma, palma
Negro dança, sua e lava a alma
As mãos que se humilham ao céu
Serão as que erguerão troféus
Demorou já vou camba,
Porque o samba em boas mãos ta
Michelangelo vive bem perto
Em forma de samba ele é Almir Guineto
Mãos se rendem
Para outras que tudo levam
Quase em extinção
Mãos honestas, amorosas
Em nossas pobres mãos, batem as cordas
Pago pra ver, queimar em brasa,
Mãos de bacharéis
Que não condenam o mal
Que inocentam réis
em troca do vil metal
Em mão de infiéis
Revés que não condenam
Volver na diretriz
Tão fraudulentas
Sem réu e sem juiz
mãos não se acorrentam
Justiça põe as mãos
Na consciência
Ato que perfilado
Lavando tuas mãos
É o mesmo que justiça
Feita com as próprias
Mãos que fracassaram na Torre de babel
Porque desafiaram mãos do céu
- Com o número de desempregados que tem na cidade de São Paulo (dois milhões) e o número de armas de fogo que circulam na cidade (igualmente em torno de dois milhões) a cidade até que é muito tranqüila.
DICAS DE CINEMA
- De passagem – Estréia esta semana, na sexta-feira o filme “De Passagem”, o primeiro longa-metragem de Ricardo Elias. O filme tem uma abordagem da periferia que hoje é praticamente subversiva. Um olhar digno e compreensivo, não moralista, que com simplicidade sem ser simplista conta uma bela história desta cidade (São Paulo). Duas viagens, uma no passado, outra no presente, marcam a vida de três amigos.
- Adeus, Lênin! – O filme conta de maneira simples e interessante, através da história do filho que tem que esconder da mãe que o muro caiu, o veloz fim da Alemanha Oriental. O mais legal para mim é contar a “grande história do muro de Berlim” e do bloco soviético, que em geral se conhece, mas ao nível do chão, das pessoas, de coisas como a troca dos marcos orientais, o abandono dos imóveis, reencontros e fins.
- Dogville - Uma estranha porrada. Com temática semelhante à “Dançando no Escuro”, do mesmo Lars Von Trier. O final que aquele tinha de emocional, esta novo filme tem de intrigante. Sem soluções fáceis.
- Elefante – A diferença que faz o plano-seqüência....Um mundo sem sentido e por isso, talvez sem explicação. OS; O jornalista Nelson de Sá na sua coluna Toda Mídia, na Folha, aponta bem que a linguagem do filme, e mesmo a divisão narrativa entre personagens se deslocando em um imenso cenário, é inspirada em jogos como Counter Stryke.
- Sobre Meninos e Lobos – Grande cinemão, em grandes atuações, câmera, o melhor do cinema americano. Em uma história de problemas, tragédias e traumas além das soluções.
- Encontros e Desencontros - Há quem não goste deste filme. Há quem goste pelo “hype” (palavra horrível), pelo apelo moderninho. Mas eu me surpreendi achando que vai além, gostando mais do que imaginava que ia gostar, desta história tão bem construída sobre solidão, dificuldades de comunicação entre pessoas, entre culturas e em relacionamentos.
DICAS DE LEITURA
- Continuações da disputa/debate Zé Celso X Sílvio Santos no Bexiga: o encontro dos dois no oficina, mediado por Contardo calligaris e Eduardo Suplicy (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1904200414.htm). Coluna de Contardo Calligaris (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2204200420.htm)
- O economista Paulo Nogueira Batista Jr.n n agência Carta Maior, sobre as viagens de Palocci na ilha de Comandatuba.
http://agenciacartamaior.uol.com.br//agencia.asp?coluna=boletim&id=839
- Na mesma agência Carta Maior bom e didático artigo sobre orçamento, previdência e aumento do salário mínimo que explica de forma clara como a mídia distorce/ignora uma questão claramente definida na constituição sobre a função de certas contribuições que o governo arrecada e que são desviadas para pagamento de juros da dívida;
http://agenciacartamaior.uol.com.br//agencia.asp?coluna=boletim&id=837
- As segundas intenções das companhias de telefonia que estão formando um consórcio (ou chamando melhor, cartel) para comprar a Embratel e poder sobrecarregar a tarifa do consumidor final aumentando de propósito seus custos. A jogada é conhecida na empresa como “Projeto Carnaval”. A reportagem mostra, na prática, porque em tempos remotos o PT chamava a Embratel de “estratégica’”. http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi2504200402.htm
- Traduzida do Financial Times, no UOL, matéria sobre uma das iniciativas boas do governo Lula, o estímulo a adoção do software livre. Observe o custo que os governos das diferentes esferas gastam no Brasil em licença da Microsoft US$ 1 bilhão. Lógico que software livre não sai exatamente de graça, mas há muitas vantagens, inclusive por gerar um conhecimento público, não privado, e ainda assim ser economia de fato, que fazem esta medida ser muito positiva.
http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/fintimes/ult579u1101.jhtm
assinar-papelotes@grupos.com.br
- Frase moralista para consumo populista: “No Brasil é fácil fazer piadas. Difícil é não ser tratado como palhaço.”
- Body Count: Sobre a Guerra do Iraque, a maneira mais macabra de acompanhá-la é por esta página da CNN, que traz atualizações constates do número de soldados mortos, com nome e foto deles. É injusto que não exista algo assim para os iraquianos. O site me lembra uma frase (mas não seu autor), que diz que guerra é: “Pessoas que não se conhecem matando uns aos outros, em nome de pessoas que se conhecem e não se matam”.
http://www.cnn.com/SPECIALS/2003/iraq/forces/casualties/
- Retomando nos papelotes o gosto pela publicação de letras de música, retomo com “Mãos”, uma parceria rap samba genial entre Mano Brown e Almir Guineto. Grande música presente no CD ‘Todos os pagodes” de Almir Guineto. As partes em samba estão em itálico
Mãos
Um role de Vemax
Um gole de Lê Chandon
Mãos pobres querem ter o que é bom
Mãos nordestinas me ensinou
Que mãos para trás neguinho
Não senhor!
As mãos de Tyson, ódio nocaute
As mãos do mal
Também usam esmalte
Mãos que apontam,
Mãos que delatam
Toda mão tem, mãos tremulas matam
Mãos na cabeça, o mão branca armou
Algemas, prendem a mão do sonhador
Mãos negras, sinfonia funk
As mãos do rap não usam Mon Blanc
Palma da mão, palma, palma
Negro dança, sua e lava a alma
As mãos que se humilham ao céu
Serão as que erguerão troféus
Demorou já vou camba,
Porque o samba em boas mãos ta
Michelangelo vive bem perto
Em forma de samba ele é Almir Guineto
Mãos se rendem
Para outras que tudo levam
Quase em extinção
Mãos honestas, amorosas
Em nossas pobres mãos, batem as cordas
Pago pra ver, queimar em brasa,
Mãos de bacharéis
Que não condenam o mal
Que inocentam réis
em troca do vil metal
Em mão de infiéis
Revés que não condenam
Volver na diretriz
Tão fraudulentas
Sem réu e sem juiz
mãos não se acorrentam
Justiça põe as mãos
Na consciência
Ato que perfilado
Lavando tuas mãos
É o mesmo que justiça
Feita com as próprias
Mãos que fracassaram na Torre de babel
Porque desafiaram mãos do céu
- Com o número de desempregados que tem na cidade de São Paulo (dois milhões) e o número de armas de fogo que circulam na cidade (igualmente em torno de dois milhões) a cidade até que é muito tranqüila.
DICAS DE CINEMA
- De passagem – Estréia esta semana, na sexta-feira o filme “De Passagem”, o primeiro longa-metragem de Ricardo Elias. O filme tem uma abordagem da periferia que hoje é praticamente subversiva. Um olhar digno e compreensivo, não moralista, que com simplicidade sem ser simplista conta uma bela história desta cidade (São Paulo). Duas viagens, uma no passado, outra no presente, marcam a vida de três amigos.
- Adeus, Lênin! – O filme conta de maneira simples e interessante, através da história do filho que tem que esconder da mãe que o muro caiu, o veloz fim da Alemanha Oriental. O mais legal para mim é contar a “grande história do muro de Berlim” e do bloco soviético, que em geral se conhece, mas ao nível do chão, das pessoas, de coisas como a troca dos marcos orientais, o abandono dos imóveis, reencontros e fins.
- Dogville - Uma estranha porrada. Com temática semelhante à “Dançando no Escuro”, do mesmo Lars Von Trier. O final que aquele tinha de emocional, esta novo filme tem de intrigante. Sem soluções fáceis.
- Elefante – A diferença que faz o plano-seqüência....Um mundo sem sentido e por isso, talvez sem explicação. OS; O jornalista Nelson de Sá na sua coluna Toda Mídia, na Folha, aponta bem que a linguagem do filme, e mesmo a divisão narrativa entre personagens se deslocando em um imenso cenário, é inspirada em jogos como Counter Stryke.
- Sobre Meninos e Lobos – Grande cinemão, em grandes atuações, câmera, o melhor do cinema americano. Em uma história de problemas, tragédias e traumas além das soluções.
- Encontros e Desencontros - Há quem não goste deste filme. Há quem goste pelo “hype” (palavra horrível), pelo apelo moderninho. Mas eu me surpreendi achando que vai além, gostando mais do que imaginava que ia gostar, desta história tão bem construída sobre solidão, dificuldades de comunicação entre pessoas, entre culturas e em relacionamentos.
DICAS DE LEITURA
- Continuações da disputa/debate Zé Celso X Sílvio Santos no Bexiga: o encontro dos dois no oficina, mediado por Contardo calligaris e Eduardo Suplicy (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1904200414.htm). Coluna de Contardo Calligaris (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq2204200420.htm)
- O economista Paulo Nogueira Batista Jr.n n agência Carta Maior, sobre as viagens de Palocci na ilha de Comandatuba.
http://agenciacartamaior.uol.com.br//agencia.asp?coluna=boletim&id=839
- Na mesma agência Carta Maior bom e didático artigo sobre orçamento, previdência e aumento do salário mínimo que explica de forma clara como a mídia distorce/ignora uma questão claramente definida na constituição sobre a função de certas contribuições que o governo arrecada e que são desviadas para pagamento de juros da dívida;
http://agenciacartamaior.uol.com.br//agencia.asp?coluna=boletim&id=837
- As segundas intenções das companhias de telefonia que estão formando um consórcio (ou chamando melhor, cartel) para comprar a Embratel e poder sobrecarregar a tarifa do consumidor final aumentando de propósito seus custos. A jogada é conhecida na empresa como “Projeto Carnaval”. A reportagem mostra, na prática, porque em tempos remotos o PT chamava a Embratel de “estratégica’”. http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi2504200402.htm
- Traduzida do Financial Times, no UOL, matéria sobre uma das iniciativas boas do governo Lula, o estímulo a adoção do software livre. Observe o custo que os governos das diferentes esferas gastam no Brasil em licença da Microsoft US$ 1 bilhão. Lógico que software livre não sai exatamente de graça, mas há muitas vantagens, inclusive por gerar um conhecimento público, não privado, e ainda assim ser economia de fato, que fazem esta medida ser muito positiva.
http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/fintimes/ult579u1101.jhtm
terça-feira, abril 20, 2004
matéria da folha de ontem, sobre tema tratado na última edição dos papelotes - http://www.grupos.com.br/grupos/papelotes
ILUSTRADA
Empresário e diretor teatral se reuniram para conversar sobre projeto de construção de shopping na área do teatro
Silvio Santos encontra Zé Celso no Oficina
DA REDAÇÃO
Depois de mais de duas décadas de conflitos, o empresário e apresentador de TV Silvio Santos e o diretor José Celso Martinez Corrêa se reuniram ontem, no teatro Oficina, em São Paulo. Eles conversaram sobre projeto do shopping que o Grupo Silvio Santos pretende construir em terreno de sua propriedade em torno do teatro, no bairro do Bexiga.
"O encontro foi extraordinário, mágico, é uma coisa que há 25 anos eu sonho", afirmou o diretor, que pela primeira vez se avistou com o empresário.
Da reunião também participaram o senador Eduardo Suplicy, acompanhado de seu filho, o cantor Supla, e o psicanalista Contardo Calligaris, colunista da Folha.
O encontro foi intermediado por Suplicy, que telefonou ao empresário, dono da rede de TV SBT, na última sexta, um dia após a publicação, na Folha, de coluna em que Contardo Calligaris propunha em carta aberta a Silvio Santos que ele conversasse com Zé Celso e fizesse uma visita ao teatro. Silvio Santos manifestou a Suplicy o interesse em conhecer o Oficina, e a reunião foi marcada.
O empresário chegou ao teatro desacompanhado, às 17h. Foi recebido por integrantes do grupo teatral, que cantaram músicas do espetáculo "O Homem 2".
Zé Celso contou um pouco da história do grupo e apresentou o teatro a Silvio Santos. Depois encaminharam-se para o mezanino do Oficina, onde Zé Celso detalhou seu projeto de construir um anfiteatro para grandes peças populares, espécie de "universidade popular do teatro".
O diretor teatral enfatizou não se opor a iniciativas de desenvolvimento do bairro do Bexiga e disse não ver contradições entre o projeto do Grupo Silvio Santos e a manutenção do Oficina. O grupo de Zé Celso entregou a Silvio Santos um projeto de expansão do teatro que prevê a utilização dos terrenos que o shopping e o centro de diversões ocupariam, numa tentativa de conciliar as duas propostas. O trabalho foi desenvolvido pela arquiteta Cristiane Cortilio. Silvio Santos afirmou que o levaria para sua equipe avaliar a viabilidade do projeto.
"Os Sertões" e água-de-coco
A reunião durou cerca de uma hora. O empresário tomou água-de-coco, recebeu uma edição de "Os Sertões", de Euclydes da Cunha, com dedicatória escrita pelo diretor, e deixou a promessa de que voltariam a se encontrar.
Ao final da visita, o grupo Oficina cantou para Silvio Santos samba dos anos 70 da escola carioca Vila Isabel cuja letra diz: "Eu sou o teatro brasileiro/Da vida o espelho verdadeiro". Silvio Santos escutou até o fim e foi acompanhado por aplausos do grupo até sua saída do teatro.
"Se nas suas próximas apresentações vocês cantarem com tanto carinho, terão o maior sucesso", declarou Silvio Santos.
"Ele achava que a disputa era exclusivamente pela preservação do teatro. Foi recebido pelo elenco todo, agradeceu e ficou impressionado", disse Zé Celso.
"Outra dimensão"
No final, o diretor fez uma avaliação positiva do encontro. "O Silvio veio sozinho, sem paranóia, chegou na hora, isso é importantíssimo. Estávamos nos preparando para recebê-lo de corpo aberto, de alma aberta. Fui caminhando com ele e mostrando os buracos que existem no fundo do teatro, e os atores ficaram o tempo todo se concentrando. Estou orgulhosíssimo, os atores conseguiram manter uma atmosfera zen, tântrica", disse ele.
Segundo Zé Celso, foi dito a Silvio Santos que o grupo pretende fazer um "teatro dedicado à cultura brasileira antropofágica, e que já estamos preparados para isso. Ele se surpreendeu. Quis saber quanto custa o projeto. E o convidei para atuar", contou. Para ele, "a partir de hoje, mudou a relação" com Silvio Santos.
"Vi nele uma pessoa de carne e osso e, por trás do homem em que existe só comércio, vi uma outra dimensão, muito contagiante, muito talentosa. Esse encontro pode ser uma revolução na cultura de São Paulo", disse.
Para o senador Suplicy, o encontro foi entre "duas pessoas de genialidade e talento". E considerou o episódio "uma experiência de "serendipity" [dom de fazer descobertas felizes, por acaso]".
ILUSTRADA
Empresário e diretor teatral se reuniram para conversar sobre projeto de construção de shopping na área do teatro
Silvio Santos encontra Zé Celso no Oficina
DA REDAÇÃO
Depois de mais de duas décadas de conflitos, o empresário e apresentador de TV Silvio Santos e o diretor José Celso Martinez Corrêa se reuniram ontem, no teatro Oficina, em São Paulo. Eles conversaram sobre projeto do shopping que o Grupo Silvio Santos pretende construir em terreno de sua propriedade em torno do teatro, no bairro do Bexiga.
"O encontro foi extraordinário, mágico, é uma coisa que há 25 anos eu sonho", afirmou o diretor, que pela primeira vez se avistou com o empresário.
Da reunião também participaram o senador Eduardo Suplicy, acompanhado de seu filho, o cantor Supla, e o psicanalista Contardo Calligaris, colunista da Folha.
O encontro foi intermediado por Suplicy, que telefonou ao empresário, dono da rede de TV SBT, na última sexta, um dia após a publicação, na Folha, de coluna em que Contardo Calligaris propunha em carta aberta a Silvio Santos que ele conversasse com Zé Celso e fizesse uma visita ao teatro. Silvio Santos manifestou a Suplicy o interesse em conhecer o Oficina, e a reunião foi marcada.
O empresário chegou ao teatro desacompanhado, às 17h. Foi recebido por integrantes do grupo teatral, que cantaram músicas do espetáculo "O Homem 2".
Zé Celso contou um pouco da história do grupo e apresentou o teatro a Silvio Santos. Depois encaminharam-se para o mezanino do Oficina, onde Zé Celso detalhou seu projeto de construir um anfiteatro para grandes peças populares, espécie de "universidade popular do teatro".
O diretor teatral enfatizou não se opor a iniciativas de desenvolvimento do bairro do Bexiga e disse não ver contradições entre o projeto do Grupo Silvio Santos e a manutenção do Oficina. O grupo de Zé Celso entregou a Silvio Santos um projeto de expansão do teatro que prevê a utilização dos terrenos que o shopping e o centro de diversões ocupariam, numa tentativa de conciliar as duas propostas. O trabalho foi desenvolvido pela arquiteta Cristiane Cortilio. Silvio Santos afirmou que o levaria para sua equipe avaliar a viabilidade do projeto.
"Os Sertões" e água-de-coco
A reunião durou cerca de uma hora. O empresário tomou água-de-coco, recebeu uma edição de "Os Sertões", de Euclydes da Cunha, com dedicatória escrita pelo diretor, e deixou a promessa de que voltariam a se encontrar.
Ao final da visita, o grupo Oficina cantou para Silvio Santos samba dos anos 70 da escola carioca Vila Isabel cuja letra diz: "Eu sou o teatro brasileiro/Da vida o espelho verdadeiro". Silvio Santos escutou até o fim e foi acompanhado por aplausos do grupo até sua saída do teatro.
"Se nas suas próximas apresentações vocês cantarem com tanto carinho, terão o maior sucesso", declarou Silvio Santos.
"Ele achava que a disputa era exclusivamente pela preservação do teatro. Foi recebido pelo elenco todo, agradeceu e ficou impressionado", disse Zé Celso.
"Outra dimensão"
No final, o diretor fez uma avaliação positiva do encontro. "O Silvio veio sozinho, sem paranóia, chegou na hora, isso é importantíssimo. Estávamos nos preparando para recebê-lo de corpo aberto, de alma aberta. Fui caminhando com ele e mostrando os buracos que existem no fundo do teatro, e os atores ficaram o tempo todo se concentrando. Estou orgulhosíssimo, os atores conseguiram manter uma atmosfera zen, tântrica", disse ele.
Segundo Zé Celso, foi dito a Silvio Santos que o grupo pretende fazer um "teatro dedicado à cultura brasileira antropofágica, e que já estamos preparados para isso. Ele se surpreendeu. Quis saber quanto custa o projeto. E o convidei para atuar", contou. Para ele, "a partir de hoje, mudou a relação" com Silvio Santos.
"Vi nele uma pessoa de carne e osso e, por trás do homem em que existe só comércio, vi uma outra dimensão, muito contagiante, muito talentosa. Esse encontro pode ser uma revolução na cultura de São Paulo", disse.
Para o senador Suplicy, o encontro foi entre "duas pessoas de genialidade e talento". E considerou o episódio "uma experiência de "serendipity" [dom de fazer descobertas felizes, por acaso]".
segunda-feira, abril 19, 2004
domingo, abril 18, 2004
A mailing papelotes (http://www.grupos.com.br/grupos/papelotes) é diferente do Blog. Só pode ser diferente do Blog. Existe nela uma cumplicidade, que neste vazio aberto de uma página não há. Para você, por exemplo, que caiu aqui por acaso e nem sabe do que eu estou falando, este próprio texto é um exemplo do que eu estou falando. Então, nem tudo, nem do mesmo jeito que vai lá, vira cá. E lá vai antes. Então vá lá e cadastre-se, enquanto solução (edição) do problema blog virá a galope esta semana.
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