terça-feira, fevereiro 19, 2008
Editorial da Folha contra a Universal
ntimidação e má-fé
BISPOS da Igreja Universal do Reino de Deus desencadeiam, contra os jornais "Extra", "O Globo", "A Tarde" e esta Folha, uma campanha movida pelo sectarismo, pela má-fé e por claro intuito de intimidação.
Em dezembro, a Folha publicou reportagem da jornalista Elvira Lobato descrevendo as milionárias atividades do bispo Edir Macedo. Logo surgiram, nos mais diversos lugares do país, ações judiciais movidas por adeptos da Igreja Universal que se diziam ofendidos pelo teor da reportagem.
Na maioria das petições à Justiça, a mesma terminologia, os mesmos argumentos e situações se repetiam numa ladainha postiça. O movimento tinha tudo de orquestrado a partir da cúpula da igreja, inspirando-se mais nos interesses econômicos do seu líder do que no direito legítimo dos fiéis a serem respeitados em suas crenças.
Magistrados notaram rapidamente o primarismo dessa milagrosa multiplicação das petições, condenando a Igreja Universal por litigância de má-fé. Prosseguem, entretanto, as investidas da organização.
Não contentes em submeter a repórter Elvira Lobato a uma impraticável seqüência de depoimentos nos mais inacessíveis recantos do país, os bispos se valeram da rede de televisão que possuem para expor a pessoa da jornalista, no afã de criar constrangimentos ao exercício de sua atividade profissional.
É ponto de honra desta Folha sempre ter repelido o preconceito religioso. A liberdade para todo tipo de crença é um patrimônio da cultura nacional e um direito consagrado na Constituição. A pretexto de exercê-lo, porém, os tartufos que comandam essa facção religiosa mal disfarçam o fundamentalismo comercial que os move. Trata-se de enriquecimento rápido e suspeito -e de impedir que a opinião pública saiba mais sobre os fatos.
Não é a liberdade para esta ou aquela fé religiosa que está sob ataque, mas a liberdade de expressão e o direito dos cidadãos à verdade.
segunda-feira, fevereiro 18, 2008
Inacreditável
Escrever para não ser lido...
Esse post é porque o descarrego muito ligeiro que eu fiz sobre o filme "Sangue Negro" foi parar na seção de blogueiros independentes da revista Fórum. E que se eu soubesse que era para alguém "de verdade" ler, teria-o feito com mais idéias e cuidados. Desculpa da poltrona, eu sei que você é "de verdade". Mas é só para explicar que com o pouco tempo que tenho para blog isso aqui é rascunho e improviso. Tentativa e erro. Ensaio.
E para que as indicações que antes fazia para amigos, também fiquem a céu aberto...
sábado, fevereiro 16, 2008
Apertem os cintos em Berlim
Para o mundo. Já! Eu não entendo mais nada e quero descer...
:)
Sangue Negro - There will be blood
Outra coisa. Faz parte de Sangue Negro ser cinema tão bom por também ser um filme muito, mas muito atual e político. De certa forma, é também sobre Bush. Não de maneira vulgar ou direta. Mas sim de forma inquisitiva, provocadora e radical, no sentido de ir a raiz do tema e dela extrair algo que perdura muito além de Bush e sua gangue. Afinal, o filme traz o conflito entre a competição e a ambição desmedida da busca da riqueza material, aliás a do petróleo, "contra" o fanatismo religioso. Na realidade, a ambição "empreendedora" está em combate com ele, mas também ao lado, usando-o e deixando-se ser usada.
Com apenas 37 anos, Anderson já produziu Magnólia e Boggie Nights, e agora faz talvez seu melhor filme, que ao invés de um painel, mergulha na figura complexa que lhe deu Lewis, um verdadeiro co-autor do filme. É, junto com Tarantino e Gus Van Sant, a grande trinca do cinema americano atual.
PS1: As menções "anti-socialistas" da Veja ao filme, e as tentativas de dizer que de alguma maneira ele engrandece o espírito "empreendedor" são ridículas. O filme respeita a bravura e o código do personagem, está longe de ser maniqueísta ou retratar Plainview como um simples canalha, mas mostra a tragédia deste "espírito capitalista" desmedido.
PS2: O fato de parte da crítica norte-americana se dedicar a bobagens como "não há mulheres no filme"...é inacreditável. Não há mulheres em Dr. Fantástico, do Kubrick, não há mulheres em garimpos, não há muitas mulheres em vestiários de futebol...caramba, são simplesmente mundos masculinos. O que raio isso tem a ver com a obra de arte em si....
PS3: O crítico da Folha Cássio Starling Carlos comparar Paul Thomas com o o outro Anderson, o Wes, ambos como "talentos a serem confirmados"....é ridículo. Wes é um diretor superficial, imaturo e perde seu talento em maneirismos pop, muito, muito, mas muito abaixo da coragem e inteligência de Paul Thomas. Aliás, que criticazinha inútil...
quinta-feira, fevereiro 14, 2008
Siba e a Fuloresta - grande disco
Quando eu ouvir melhor, se for o caso, comento mais.
Tropa de Elite em Berlim
Particularmente na crítica da Variety, a principal revista de cinema para Holywood. A primeira frase da matéria já "resume tudo":
Brazil’s powerful military police are elevated to Rambo-style heroes in “The Elite Squad,” a one-note celebration of violence-for-good that plays like a recruitment film for fascist thugs.
No link abaixo, a resenha completa.
http://www.variety.com/review/VE1117936168.html?categoryid=31&cs=1
PS: Os muitos comentários brasileiros no blog, que estendem ao coitado do crítico norte-americano o chato debate sobre o filme, são de uma pobreza de dar dó e vergonha...
sexta-feira, fevereiro 08, 2008
Como os conservadores se vêm (positivamente)
"The American conservative movement has been remarkably successful. We shouldn’t take that success for granted. It’s not easy being a conservative movement in a modern liberal democracy. It’s not easy to rally a comfortable and commercial people to assume the responsibilities of a great power. It’s not easy to defend excellence in an egalitarian age. It’s not easy to encourage self-reliance in the era of the welfare state. It’s not easy to make the case for the traditional virtues in the face of the seductions of liberation, or to speak of duties in a world of rights and of honor in a nation pursuing pleasure."
PS: O texto é sobre como os conservadores não podem deixar barato que sua "derrota" interna dentro do Partido Republicano para John Mcain, os faça a não apoiar o "menor dos males" e deixe espaço para os "liberais" Democratas voltarem a Casa Branca.
The Economist e o Bolsa Familia
http://www.economist.com/world/la/displaystory.cfm?story_id=10650663
Despite the early success of Bolsa Família, three concerns remain. The first is over fraud. Because money is paid directly to the beneficiary's debit card, there is little scope for leakage. The question is whether local governments are collecting accurate data on eligibility and enforcing the conditions. Some 15% of municipal councils make the improbable claim that 100% of pupils are in school 100% of the time. Despite this, most of the money does go to the right people: 70% ends up in the pockets of the poorest 20% of families, the World Bank finds.
Second, some people worry that Bolsa Família will end up as a permanent feature of Brazilian society, rather than a temporary boost aimed at changing the opportunities available to the poorest. Whether this happens will depend largely on whether Brazil's public schools improve fast enough to give all their new pupils a reasonable education. Since the scheme began on a large scale only in 2003, it is still too early to tell.
Third, Bolsa Família is sometimes equated with straightforward vote-buying. That is unfair. Luiz Inácio Lula da Silva's name is strongly associated with the scheme—even among some people in Alagoas who are unaware that he is Brazil's president. But their gratitude does not extend to support for his Workers' Party. There are signs that mayors who administer the programme well get a reward at the polls while those who do not suffer. For a relatively modest outlay (0.8% of GDP), Brazil is getting a good return. If only the same could be said of the rest of what the government spends.
domingo, outubro 28, 2007
Sobre Tropa de Elite – A farsa oportuna do cinema “de personagem”
Do muito que foi escrito sobre “Tropa de Elite” decide abordar o que não vi em lugar nenhum a partir de uma discussão menos “sócio-ideológica”, mas mais a partir do filme em si. Sou obrigado a concordar com os que dizem que um filme fala por si só, sem precisar de mea-culpa da sua equipe em relação a leitura política feita pelas pessoas a partir do filme. Ainda mais quando a principal diferença, entre a “esquerda” e a “direita” sobre o filme não é sobre seu claro sentido pró-violência policial (que chega a tortura) e que responsabiliza fortemente os usuários pela violência do tráfico. Direita e esquerda fazem essa mesma leitura do filme. Elas discordam em relação a se isso é bom ou ruim, necessário ou bárbaro. E não é essa a questão que quero tratar nesse texto.
A verdade é que todos os personagens de Tropa de Elite são muito rasos. O traficante, os jovens da ONG, os policiais corruptos são esquemáticos, e a esposa de Nascimento quase não existe. O único que não é raso é justamente o capitão, menos por força do roteiro e mais do incrível ator que é Wagner Moura. Aliás, não é o discurso direitoso por si só, mas são justamente os personagens ralos, sem motivação ou contraditório, com a exceção de Moura carregando o filme, a lógica maniqueísta, a produção impecável, holywoodiana, e as cenas de ação espetaculares, com violência muito além de holywood, que fazem o filme ser um sucesso, inclusive popular.
Esconder-se atrás de que o filme é a “visão do Capitão Nascimento”, isso para um diretor de cinema que deveria se prezar é pura covardia. “Tropa de Elite” é o anti “Nascido para Matar” (Full Metal Jacket). Aquilo que no treinamento militar mostrado por Kubrick era trágico, e culminava com o homem morrendo por dentro ao matar a vida do inimigo, em Padilha torna-se um ritual de amadurecimento e de superação do “aspirante”. O que em um era crítica ao som de Stones, no outro é funk exaltação.
Como o mesmo Padilha, do brilhante e humano documentário “Ônibus 174”, sobre o mesmo tema da violência urbana, resultou nesse diretor do “Tropa de Elite”? O que existe de um autor, de algum projeto, de algo a se dizer, entre um filme e outro? Isso resulta em mais duas perguntas, sobre dois oportunismos: quanto Padilha aparece como autor, mas não “apita” completamente sobre seu filme? Quanto em “Tropa de Elite” não é justamente onde vai dar a lógica de mercado e de espetáculo “pop”, onde a execução de projetos e sua “ética” perante os investidores significa muito mais do que a ética que em relação à obra, ou às suas próprias idéias? Porque minha impressão é que a única coisa que pode unir em uma linha um documentário humano sobre uma história incrível e um filme que torna pop a violência policial é o oportunismo. Ali, era oportuno ser compreensivo, complexo, explicar as razões sociais. Aqui, é oportuno ser espetacular. O diretor é um corretor de investimentos em projetos cinematográficos?
São questões chatas, mas tratar cenas de ação em comunidades carentes com estética de Counter Strike não pode ser uma coisa impune. Posar de diretor quando isso é bacana, e para manter uma mística “autoral” quando tem grana e empresas grossas por trás de ti definindo rumos, e jogar os questionamentos morais ao filme nas costas de um personagem fictício, não dá para ficar sem ao menos um questionamento. Fazer piada de montagem com tortura, como no corte logo após o enterro de Neto, não dá para fingir que o diretor não sabia o que estava fazendo. Dizer que o contraponto da violência policial de um personagem de ação infalível é ele ter uma família disfuncional, quando as cenas com essa família são fracas, e seu desfecho aberto some para o espectador, pálido em relação a avalanche pop das cenas de ação, é fingir uma incompetência e burrice que Padilha certamente não tem. Ele que exerceu opções, não Nascimento.
Tanto não tem essa ingenuidade, e são tão espertas e “oportunas” as pessoas por trás do filme, que a notícia é que no exterior ele será narrado pelo ponto de vista do personagem André Mathias, e provavelmente terá outra montagem. Não são nada bobos. Sabem que o discurso de extrema violência que aqui gorjeia e se aceita, baniria o mercado para o filme lá fora. Transformarão em uma história passional de hesitação em torno da vingança pela morte injusta do amigo, combinado com a dificuldade de aceitação social. Melhor ainda que o personagem é negro, porque isso dará o fundo do racismo da classe média. Outro mercado, outra obra, outro discurso. Como discutir autoria artística e ética cinematográfica com essa gente? Autoral, para eles, é só proteger o dim-dim do copyright partindo para cima dos camelôs que te divulgam, mas estragam os lucros do lançamento do DVD.
de Carlos Reichenbach
DE EISENSTEIN A RIEFENSTAHL — Fazer cinema é também fazer escolhas. Ao optar por um discurso, seja ele de direita ou de esquerda, sem distanciamento ou autocrítica, o cineasta esbarra, queira ele ou não, no proselitismo. E o proselitismo tende a ser a morte da arte. O que não impede que, mesmo comprometida, a obra venha a ter certa importância histórica.
Sergei Eisenstein, por exemplo, não deixou de revolucionar a linguagem cinematográfica por ter feito filmes de encomenda. A alemã Leni Riefenstahl pode ter sido uma persona abjeta, mas sabia filmar magnificamente bem. Se bem que o seu ápice foi ter se voltado, no fim da vida, a outro universo abissal: o fundo do mar.
DE SÓCRATES A BENJAMIM - Os filósofos, de Sócrates a Walter Benjamim, dizem que o pensamento humano não pode ser monolítico. Ele é construído de rupturas. Benjamin acredita que a ruptura é inevitável, mas que existe uma continuidade subterrânea na ruptura. Venho de uma geração que trocou as certezas absolutas pelas dúvidas transgressivas ("eu não sei o que eu quero, mas sei o que não quero") e espera que a criação artística espelhe perplexidades, encantamentos e/ou sensações submersas. Do contrário, é expressão inócua.
A ESCOLHA DE PADILHA — Ao escolher o ponto de vista do policial assumiu um risco bastante capcioso que, somado aos compromissos comerciais do filme, resultou numa combinação perigosa. Isso, aparentemente, levou o filme para a direita, independentemente das suas intenções. Uma postura mais libertária teria, por exemplo, levado o aspirante Matias a atirar no Capitão Nascimento quando este fica esbravejando em seu ouvido, enchendo o saco e induzindo-o à barbárie.
Seria uma solução genial, anárquica, à altura de um Samuel Fuller. Mas um caminho como esse ia detonar o filme comercialmente, assim como, por exemplo, se o menino sob tortura não dissesse nada, levasse o cabo da vassoura, e, mesmo assim, calasse, deixando protagonistas e público perplexos. Mas essa minha observação é uma postura muito confortável para quem avalia uma obra acabada à distância.
Outros filmes brasileiros experimentaram observar e entender o viés do repressor. O ótimo "Eu Matei Lúcio Flávio", de Antonio Calmon, também foi chamado erroneamente de fascista. Um filme de direita não é necessariamente reacionário ou fascista. O excepcional curta metragem "O Inspetor", de Arthur Omar, talvez seja o filme que melhor tenha retratado o imaginário transversal e dilema ético do policial.
O BANDIDO-HERÓI: OUTRO LADO DA MOEDA — Em que pesem as críticas pertinentes, “Tropa de Elite” é uma obra interessante porque não tem medo de lidar com um tema cabeludo e estimular uma discussão necessária: até que ponto se justificam a coação e a tortura na repressão ao crime organizado. Em matéria de cinema brasileiro, isto é uma ruptura radical com a geração dos anos 60 que adotou a ótica do marginal como resposta ao ideário do poder vigente da época. A verdade é que os tempos do "seja bandido, seja herói" já não se justificam mais. Marginal virou uma expressão pejorativa, antítese de transgressão.
O filme ficou suscetível também a uma cobrança obsessiva e atual em cima das obras que retratam o momento histórico do país. Alguns dos que criticam “Tropa de Elite" são os mesmos que atacaram “Batismo de sangue”, de Helvécio Ratton, por enxergar com simpatia e tolerância a fragilidade os padres dominicanos que sucumbiram sob tortura. Ora, ambos os filmes me despertaram o interesse e trouxeram à baila assuntos traumáticos e urgentes.
POUND, ELIOT E OS NOSSOS FASCISMOS — A preocupação de quem assiste não deve ser com lado que, aparentemente, o filme se coloque, mas com o fato dele estar atrás ou à frente de seu tempo. É a mesma coisa que falar mal da obra de Ezra Pound pelas posturas fascistas dele em vida, ou de TS Eliot porque era monarquista.
Ambos são poetas extraordinários, cuja obra transcende as sombras de suas personalidades. A obra de arte talvez seja o único espaço livre onde podemos expor as nossas idiossincrasias, as nossas vilanias, os pequenos fascismos de cada dia. O câncer da criação artística é a autocensura. Embora a responsabilidade nunca deva ser negligenciada, criação e invenção pressupõem risco.
quinta-feira, outubro 04, 2007
2 Diogos ou porque ninguém precisa mais de Veja Q Porcaria
De Wagner Moura, no UOL Cinema (http://cinema.uol.com.br/ultnot/2007/10/04/ult4332u457.jhtm):
UOL - Você diz que a acusação de jogada de marketing foi dolorosa para a equipe. E a de fascismo, que é muito mais pesada?
W.M. - Essa acusação foi triste. Eu me sinto atingido pessoalmente. Não sou fascista, o Zé não é fascista, o filme não é fascista. O Diogo Mainardi escreve na "Veja" que o Brasil não precisa de cinema, que o governo não deveria dar dinheiro para os filmes, que só viu o cartaz de "Tropa de Elite", mas já deu para perceber que sou um péssimo ator, que deveriam raspar minhas sobrancelhas. Tem muita gente que o vê como um herói. E nós é que somos os fascistas?
De Gilberto Maringoni, na Agência Carta Maior:
Che Guevara e os mimos da família Civita
Dar a patinha, rolar no chão e falar mal de tudo que cheire a povo são as eternas gracinhas da pet shop chamada Veja. Os Civita adoram mascotes. Têm vários.
Gilberto Maringoni
A humanidade sempre gostou de animais de estimação, mas agora o costume virou moda. Pet shops tomam conta das cidades brasileiras e roupas, brinquedos e alimentos especiais para bichinhos disputam um mercado crescente. Escolas especiais pipocam por toda parte, sofisticando a pedagogia caseira de ensinar mascotes a sentar, dar a patinha ou buscar objetos atirados ao longe. Todos gostam dessas companhias domésticas. Fazem a alegria das crianças.
Há uma família em São Paulo que parece adorar mascotes. É um clã de origem italiana, aqui radicado há décadas. Não se sabe bem o porquê, mas alguns de seus membros exibem socialmente um inconfundível acento novaiorquino. Manias, quem sabe. Trata-se da turma dos Civita, gente boa, com negócios para os lados da marginal Pinheiros.Os Civita adoram mascotes. Têm vários. Um dos orgulhos de sua casa de negócios atende pelo nome de Diogo. Aliás, são dois os Diogos amestrados daquele – chamemos assim – lar da marginal. Vamos falar de um deles, o Diogo Schelp (tem o Mainardi, mas este fica para outra hora). O Schelp é um espécime reluzente. Dá a patinha, busca o que o dono mandar e não gosta do que os Civita não gostam. Coisa bonita de se ver. Diogo Schelp deve andar aí pela casa dos trinta anos. Tem futuro.
Cuba, Venezuela, MST etc.
Os Civita detestam tudo que cheire a povo. Externam especial repulsa por coisas como Cuba, Venezuela, MST e quejandos. Quando precisam propalar aos quatro ventos seus desapreços, chamam um dos Diogos. “Vem, Diogo, vem”. E Diogo – qualquer um deles – faz a alegria da família. “Vem, Diogo, vem, desce o chanfralho no Chávez, vem!”. E lá vai Diogo, correndo, mostrar o serviço.Como toda boa família, os Civita têm sua sala de visitas, onde exibem tudo do bom e do melhor. A sala de visitas tem até nome. Chama-se Veja. Toda semana apresenta uma decoração nova, todas diferentes, mas iguais às anteriores, se é que dá para entender.Diogo é um fenômeno, dizíamos. É bom também não confundi-lo com Dioguinho, apelido de Diogo da Rocha Vieira, famoso bandido e salteador que aterrorizou os sertões da Mogiana, entre o final do século XIX e inícios do XX. Dioguinho era bandido de aluguel, que agia em troca de bom soldo. Diogo, o Schelp não aterroriza ninguém.Pois não é que depois de fazer das suas por várias vezes, exibindo língua solta contra a Venezuela e Cuba o Diogo resolveu voltar-se contra Che Guevara.
Certamente fez isso depois de dar a patinha, rolar no tapete e pedir papinha, pois a vida não anda fácil.
Pérolas e olfatos
Diogo é uma graça. Ganhou uma capa – é capa da tal sala de visitas, a Veja – e mais um monte de espaço. Sua pérola chama-se “Che. Há quarenta anos morria o homem, nascia a farsa”. A obra é hercúlea. Diogo contou com a ajuda de outro civitete de estimação, um serzinho chamado Duda Teixeira. Para fazer das suas, foram falar com vários cubanos que, segundo ambos, conviveram com Che Guevara. Não foram a Cuba, mas entrevistaram quatro que moram na mais reluzente cidade latino-americana, chamada Miami. Tem uma comunidade cubana lá que é do balacobaco. Ajudaram a eleger George e seu irmão Jeb Bush. Gente fina. Entre citações dos tais cubanos e sacadas próprias, a dupla DD (Diogo e Duda) saiu-se com estas:
“Che foi um ser desprezível”.
“Che tem seu lugar assegurado na mesma lata de lixo onde a história já arremessou há tempos outros teóricos e práticos do comunismo, como Lenin, Stalin, Trotsky, Mao e Fidel Castro”.
"Sua vida foi uma seqüência de fracassos".
Como a vida da dupla DD é uma seqüência de sucessos, eles podem dizer esta última frase de boca cheia. Certamente ambos vão revelar proximamente terem feito algo mais grandioso do que uma revolução nas barbas do império (desculpem o uso da expressão antiquada) ou de terem dado a vida defendendo o que pensam. O mais legal é a especialidade olfativa dos DD. Sabem de cada uma. Vejam esta:“Che (...) não gostava de banho e tinha cheiro de rim fervido". Cheiro de rim fervido! Alguém sabe como é? Os DD, pelo visto, cultivam o salutar hábito de experimentar odores em busca de comparações espirituosas a pedido dos Civita.E tem mais. Como estão fazendo graça, dando a patinha e tal, os DD não se preocupam nem mesmo em dizer uma coisa no início da matéria e desdizer a mesma coisa linhas abaixo. Pois vejam só:“Desde o início, Che representou a linha dura pró-soviética, ao lado do irmão de Fidel, Raul Castro”.Lá adiante, a dupla do barulho fala assim:“Che também se tornou crítico feroz da União Soviética”.Os Civita devem adorar. Os Civita gostam de dinheiro, poder e publicidade oficial, da qual suas revistas andam cheias. O governo deve gostar muito dos Civita e de seus mascotes, para dar esse ajutório todo.Mas deve haver uma hora que os DD cansam um pouco a família lá da marginal. Mesmo vivendo toda hora na sala e se exibindo para as visitas, há sempre um perigo maior. O de fazer xixi no tapete. Foi o que aconteceu agora. Graça demais não tem muita graça não
Gilberto Maringoni, jornalista e cartunista da Carta Maior, é doutor em História pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de “A Venezuela que se inventa – poder, petróleo e intriga nos tempos de Chávez” (Editora Fundação Perseu Abramo).
quarta-feira, setembro 26, 2007
Mano Brown, Azevedo e a Bolha...
O problema do Azedo é que ao ver um preto valente falando no meio de uma roda de brancos, estranhou que não tinha tronco, chicote ou feitor. Sentiu-se frustado por não ver a transmissão de um pelourinho. Revoltou-se com a TV Cultura, que não transmitiu o espetáculo que ele queria. "O preto tá fazendo apologia ao crime, prende o preto, não deixa ele falar, grita com o preto, põem ele no camburão". Deve ter ficado angustiado. Tenho carinho por ele, sabe, apesar de tudo. Deu um certo dó.
Mais absurdo, pensou Azedo. Ainda se deram ao trabalho de estarem lá, os brancos, para ouvir o que o preto tinha a dizer da realidade do lado de lá da ponte, tão perto dele, mas tão distante e fácil de ignorar e desprezar. E o preto ainda falar com tanta simplicidade, clareza inclusive nas suas contradições e na admissão dos seus limites como ser humano. Uma entrevista não é ouvir o que o outro tem a dizer? Provocar reflexão, questionar contradições, claro, mas isso não foi feito? Deviam ter perguntado dos conflitos com a PM, concordo, mas o problema (dele) não é esse.
É o estado atual do país e do jornalismo.
Para Azedo jornalismo não é ouvir, nem debater, muito menos reportar ou compreender. É rebater, esgarniçar, aparecer, patrulhar e massacrar. Muita gente pensa assim, ainda mais em blogs...
Como soa grotesco para Azedo ouvir o preto falar livremente, opinar livremente. Azedo acha que o país está piorando. 120 anos atrás, preto no meio da roda viva era coisa bem diferente...
domingo, agosto 05, 2007
do elio gaspari na Folha de S. Paulo de hoje
O governo entregará os boxeadores a Fidel
Dois cubanos tentaram fugir do paraíso comunista e ficaram no Brasil; presos, arrependeram-se
LULA COLOCOU o Estado brasileiro a serviço da polícia política de Fidel Castro. Esse é o resultado da detenção e do anunciado repatriamento dos boxeadores Guillermo Rigondeaux (bicampeão olímpico) e Erislandy Lara (campeão mundial dos meio-médios). Em 22 de julho, eles abandonaram a delegação que veio para o Pan. Outros dois atletas também escafederam-se. Nos últimos 20 anos, cerca de 150 desportistas cubanos aproveitaram a chance e pularam o muro do paraíso comunista.
Quando Rigondeaux e Lara sumiram, Fidel Castro escreveu um artigo intitulado "Brasil, Substituto dos Estados Unidos?", chamando os atletas de mercenários. Os dois boxeadores (patrocinados por agentes europeus) não formalizaram um pedido de asilo, e o ministro Tarso Genro assegura que se o fizerem receberão o devido amparo, "imediatamente". Os dois foram detidos pela polícia no litoral do Rio, levados para um quartel da PM, transferidos para a Polícia Federal e colocados sob vigilância policial. Nesse quadro, teriam se arrependido da fuga e resolveram voltar para Cuba.
O Brasil teve uma geração de militantes políticos preservada pela proteção que muitos países dão aos fugitivos. João Goulart, José Serra e mais de um milhar de brasileiros vagaram como penitentes, fugindo da ditadura brasileira. Jango e Serra eram perseguidos políticos. Rigondeaux e Lara quiseram sair de Cuba para viver como profissionais numa atividade que na ditadura cubana é compulsoriamente estatal. Direito deles, o de ganhar a vida onde, livremente, conseguem mais dinheiro.
Admita-se que mudaram de idéia. Salta aos olhos que essa não foi uma decisão neutra para dois cidadãos que se viram detidos. Sob custódia, não quiseram ver advogados dos agenciadores. Pouco teria custado ter oferecido aos dois um período de graça para que fossem entrevistados por organismos da sociedade civil e por representantes da Comissão de Justiça e Paz da CNBB.
É verdade que os serviços de informação americanos e empresários europeus rondam as delegações cubanas para atrair defecções. Da mesma maneira, vive em Cuba o ex-agente da CIA Phillip Agee. Murmura-se que Fidel Castro chamou sua delegação de volta antes da festa de encerramento do Pan porque farejou fuga em massa de atletas. Seriam 60.
O argumento policial segundo o qual Rigondeaux e Lara eram estrangeiros que permaneciam ilegalmente no país é digno das meganhas comunistas. Se a polícia-companheira está preocupada com imigrantes ilegais, pode encher um estádio em horas, bastando-lhe varejar alguns pontos do Rio e de São Paulo. O aparelho do Estado brasileiro deteve Rigondeaux e Lara a serviço da repressão cubana, o resto é conversa fiada.
terça-feira, julho 31, 2007
Sobre o "Cansei" - perfeito
A Abril ter se envolvido nisso, aliás, é típico.
Qual o interesse desse "anti-movimento" em melhorar a educação e a saúde pública? A condição e renda dos trabalhadores? Aumentar os espaços públicos, convivências e intercâmbios entre as classes? Aumentar a democracia do país? Reduzir a desigualdade?
E este nome, que piada pronta...
JANIO DE FREITAS
Cansei de "basta!"
O que mais deseja a riqueza do país, além das condições inigualáveis que o governo Lula lhe proporcionou?
O ODOR EXALADO pelo movimento "Cansei", ainda que nem todos os seus fundadores tenham propósitos precisamente iguais, é típico do golpismo que sempre foi a vocação política mais à vista na riqueza, não importa se cansada ou não. A fonte de onde surge não lhe nega a natureza pressentida: um escritório de negócios em São Paulo, tal como se identificaria nos primórdios de todos os golpes e tentativas de golpe desde 1944/1945, pelo menos.
Também denominada "Movimento Cívico pelo Direito dos Brasileiros" -batismo que os padrinhos relegaram, por considerarem o apelido "Cansei" mais representativo dos seus propósitos- o que a iniciativa sugere, de fato, é uma interrogação.
O que mais deseja a riqueza brasileira, além das condições inigualáveis que o governo Lula lhe proporcionou? O fim da inflação, o emudecimento do sindicalismo e das reivindicações sociais; concessões transgênicas para todos os tipos de grandes empresas e negócios, Bolsa farta e imposto baixinho ou a zero; e, sobretudo, a transferência gratuita de um oceano de dinheiro dos cofres públicos para os da riqueza privada, por intermédio dos juros recordistas concedidos pelo próprio governo aos títulos de sua emissão. Ainda não basta?
O que deseja a riqueza não pode ser a correção das deformidades socioeconômicas, institucionais e políticas que refreiam o Brasil, enquanto países do seu aparente status desenvolvem-se a níveis exuberantes. É da não-correção que vem grande parte das facilidades pelas quais a riqueza se multiplica sem cessar: a fraqueza ética do Congresso, a corrupção administrativa que só tem o corrupto e não o corruptor, as eleições movidas a marketing endinheirado, e por aí.
Além disso, nunca se viu a riqueza movendo-se, de fato, por correções e reformas a serviço do interesse do país. Os seus lobbies e outros meios só se movem, historicamente, por alterações que privilegiem os interesses da própria riqueza privada. Assim é a história parlamentar e administrativa do Brasil, para dizer o mínimo, do último meio século.
O governo Lula deu e dá à riqueza privada a situação que a ela deu o "milagre econômico" da ditadura, porém, agora sem os inconvenientes produzidos pela força. A quem vive no Brasil em nível de primeiríssimo mundo, conviria, portanto, demonstrar um pouco mais de compostura. Se não para aparentar recato que lhe falte, por um grão a mais de esperteza.
"Cansei" -e daí? Vai fazer ou, pelo menos, propõe o quê, de objetivo, prático e necessário? Disse um dos "cansados": "Queremos despertar em cada indivíduo o que ele pode fazer para mudar o país". Pois façam isso no seu próprio movimento. Sem que, para tanto, o seu alegado cansaço exale sentidos que, intencionais ou não, negados ou não, vão até onde não devem.
terça-feira, julho 24, 2007
O Brasil é uma realidade, não uma abstração descartável
a vida é muito menos maniqueísta, e mais complexa, múltipla e dia-a-dia que isso...
pensei nisso ao ler este post do blog do ricardo calil: http://www.ricardocalil.com.br/
Um país bipolar
Nunca na história desse país uma certa bipolaridade brasileira ficou tão clara quanto no noticiário de TV da última semana. No bloco dedicado ao Pan, somos uma nação com um futuro brilhante, uma nova potência esportiva, um gigante finalmente desperto. Portanto, somos também incapazes de aceitar qualquer medalha que não seja ouro, de vaiar moleques de menos de 17 anos que perdem no futebol para garotos cinco anos mais velhos, de entender a revolta do judoca que levou “apenas” prata.
No bloco seguinte, dedicado à tragédia de Congonhas, voltamos a ser um país de merda, com um governo incompetente e corrupto, companhias aéreas e pilotos despreparados e uma população de bundões, incapaz de se revoltar com tamanhas barbaridades. Claro, existe aí o evidente desejo das emissoras de TV de usar a tragédia para atacar politicamente o governo, de repetir cenas mórbidas para aumentar índices de audiência. Mas há também, como pano de fundo, uma certa fracassomania, a velha síndrome de vira-latas de que falava Nelson Rodrigues.
E, no bloco seguinte, voltamos à euforia do Pan. E continuamos a ser um país onde não se aceita o bronze e o acaso. Um país sem razão.
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segunda-feira, maio 28, 2007
VQP - Plano fechado
O verdadeiro "guia espiritual", para dizer o mínimo, da matéria, é Reinaldo Azevedo. Coitado, está tentando monitorar e patrulhar todos os textos que saem na grande imprensa sobre a greve. Artigos, entrevistas, reportagens, tudo, tudo que sai sobre o assunto na Folha e no Estado merece o elogio ou crítica de Reinaldo Azevedo, basicamente elogiando se concorda com sua opinião, e criticando e desqualificando, inclusive reportagens e relatos feitos no local, se vão contra sua opinião. É um censor nato. Deve estar partindo seu coração as posições ambíguas da cobertura da Folha de S. Paulo. Este fim-de-semana entrou em crise de nervos no seu blog, postou pitis, nervoso ao ver que Serra está em uma sinuca de bico. Apelou para o coração do seu ataque. Postou que a USP é "cara". Consome recursos públicos demais, muito mais que o ensino básico e fundamental (quando não são a mesma coisa). A USP não é cara em comparação a universidades internacionais (como seria, se seus professores ganham muito menos?). A USP é barata para o papel que cumpre em São Paulo e no Brasil, que sem suas universidades e a Fapesp ainda estaria vivendo do ciclo do café (porque nem etanol teria).
É parte do patrimônio político de Serra ter sido presidente da UNE. É parte do seu "apelo", parecer ter laços com a esquerda. Por mais que seja uma farsa difícil de engolir, ele não quer jogar isso no vinagre. A obsessão política de Serra em ser presidente em 2010 cobra seu preço todo o dia. Ele quer tanto que eu acho quase impossível que consiga.
Divertidíssimo, ainda mais vindo de quem vem, o artigo de Fernando de Barros e Silva na Folha de S. Paulo. Deve ter partido o coração do Azevedo. No sábado, foi o editor de economia do jornal a bater o governo. Na segunda, o de política praticamente rifa Pinotti e diz que os estudantes estão "certos" em espalhar fotos de Serra armado pelo campus. Os estudantes de fato foram brilhantes ao levar a crise para o colo do governador.
O plano fechado da capa da Veja reveja quão estreito é o campo de visão do radicalismo da revista, e quão isolada ela está. Levá-la a sério, Veja Q Porcaria, pra que?
Difícil, na ocupação, é saber o ponto certo entre negociar uma saída obtendo o que se quer, a revogação dos decretos. Já que isso é um baião de dois com o governo. Administrar vitórias em política, é em geral mais difícil que não apanhar da tropa de choque...
domingo, maio 27, 2007
Artigo interessante sobre a USP
VINICIUS TORRES FREIRE
A USP é quase linda, mas é feia
Universidade se torna mais produtiva e custa menos que escolas privadas boas, mas é lerda e não presta contas
A USP PERDE alguns professores para escolas privadas que pagam bem. Não se trata de vaga nem de voga, mas o caso deixou de ser raro. A maioria não deixa a universidade devido à infra-estrutura de pesquisa, ao prestígio ou pelo ambiente intelectual. Ou a tudo isso e mais os complementos de renda oferecidos pelo trabalho em fundações ou por encomendas privadas.
A USP ainda não perde a maioria dos melhores estudantes de São Paulo, mas os divide com a Unicamp e enfrenta a concorrência de boas escolas especializadas de economia, matemática, engenharia. Quantos estudantes ainda prefeririam a USP se seus cursos fossem pagos?
Pesquisa, ambiente intelectual e a maioria dos melhores estudantes ainda fazem a USP. E por quais outros critérios a universidade deveria ser julgada? Pelo seu futuro, talvez; pela produtividade, decerto, embora a medida da eficiência universitária seja um problema (que nem por isso deve ser tratado com a nonchalance do faz-de-conta que suscitam os relatórios burocráticos de produção).
Ao menos desde os anos 90, a USP torna-se mais produtiva. Há mais estudantes por professor, embora uspianos questionem a qualidade da formação de classes de uma centena de alunos. O número de publicações científicas, as de padrão internacional, por docente é 51% maior que em 2000; há mais doutores a dar aulas.
A USP é cara? Faça-se uma conta tonta, dividir o orçamento pelo total de alunos de graduação e pós: dá uns R$ 2.300 mensais por cabeça. Boas escolas privadas de economia e direito de São Paulo, sob supergerentes ou "gente do mercado", cobram uns R$ 2.000 mensais. Mas tais escolas nem de longe bancam a massa de laboratórios, pesquisas, museus, hospitais e serviços da USP. Ou seu grave gasto com aposentados, que levou 19% da despesa total de 2006.
Comparação global? Harvard gasta R$ 26 mil mensais por aluno. Mas quem quer brincar de numeralha terá de fazer algo mais sofisticado que continhas de privatistas raivosos ignaros. Por falar nisso, cabe porém discutir se os uspianos formados deveriam contribuir, na medida de sua renda, para a universidade (sim, pagar o curso ex post). Isso é solidariedade social e intergeracional, não "mercantilização do ensino".
Mas a USP é lerda. Sua burocracia e seu sistema de decisão são ineptos em inovação institucional. A USP não oferece novos formatos de cursos num mundo cambiante. Pouco reage a cursos decadentes ou que jamais se firmaram. É lerda em criar patentes, embora não deva se tornar um balcão de soluções para empresas e programas sociais, como pregam mercadistas ou esquerdóides.
A USP porém não publica periodicamente uma carta de objetivos e compromissos que possam ser verificados pelo público. Não demonstra a qualidade de seus formados. Não presta contas, afora a contabilidade comezinha. Tende a soçobrar sob o peso dos aposentados, sobre o que se finge de morta. Reage a cobranças com passividade ou por meio da militância corporativista e retrógrada.
O debate suscitado pelos decretos Serra é medíocre. É pífia a crítica à USP de um setor privado que mal investe em ciência. Governos ora nada têm a dizer à universidade. Sim, tanto zunzum e tudo ficará na mesma.
quinta-feira, maio 24, 2007
As vitórias na ocupação da USP
Conversei com duas pessoas com décadas de esquerda na USP. Uma disse que não deveriam entrar em greve porque "a universidade não produz mais-valia". O outro disse que há dez dias as entidades defenderam o fim da ocupação, porque "não havia correlação de forças". Este admitiu que eles estavama errados, e os jovens estudantes que sustentam a ocupação e aprendem conforme fazem, estavam certos. De cinco dias para cá a ocupação se tornou uma "bomba" no colo de Serra. Com a entrada em greve dos professores ontem (lógico, das partes da USP que entram em greve) o custo político da ação da Tropa de Choque subiu muito.
O que a "mais valia" e a "correlação de forças" não explicam? Ridiculamente voltando ao meu livro sobre protestos anti-globalização, A guerrilha surreal (Conrad) Que força se faz a força, e que a sociedade de hoje é do "espetáculo" para o bem e para o mal. A ocupação foi se tornando um crescente fato midiático, forçando respostas de Serra, chamando atenção para os decretos e rebatendo argumentos do governo, que optou por negar a ameaça a autonomia, a legitimidade do protesto, desqualificando-o totalmente, e enquadrando, de maneira vexatória, seus prepostos, os reitores.
O que não contavam foi com a força do protesto dos desinteressados, com a criatividade de comunicação dos estudantes, com sacadas geniais como encher as barricadas com fotos do Serra posando com uma arma, foto com a qual a direita gozou em página dupla na Veja. Com o cheiro do ralo da ilegalidade dos decretos, que começa a ser sentido por todos. Xico Sá no nominimo, matérias de repórteres da Folha sobre o clima na ocupação etc...começaram a bater na barra da calça do governo.
Pinotti foi exposto no seu real objetivo no cargo: enquadrar as públicas como representante das universidades privadas. É a privada da FMU mandando na USP, Unesp e Unicamp. Hoje, artigo do pitbull intelectual dos tucanos, José Arthur Giannotti (demorou, não?) acusa o golpe, e junto com um editorial da Folha de S. Paulo, começa a tentar sinalizar uma saída para Serra. "Redigir" os decretos, ou colocar os reitores para implantarem um "meio termo".
Tudo pode estar acabando hoje. Mas parece que não vai ficar de barato estes decretos que passam por cima da lei. A universidade, fica ainda mais dividida e polarizada entre os que lutam para que ela seja mais pública, crítica, social, e os privatistas das fundações, com uma maioria silenciosa de pesquisadores "independentes" no meio.
A sociedade lembra aos tecnocratas autoritários, que a política feita de forma silenciosa, apenas pelos interesses econômicos, nem sempre é tão fácil de se implantar assim.
Vamos ver como fica Pinotti e sua ridícula "ex-secretaria do Turismo", se a Fapesp continuará na pasta de "Desenvolvimento" e principalmente, como fica Serra e seus decretos.
quarta-feira, maio 23, 2007
Serra e a mentira
Artigo para clarear o cenário dos decretos de Serra e da ocupação
Em defesa da Universidade de São Paulo
ANTONIO CARLOS ROBERT MORAES
ESPECIAL PARA A FOLHA
Quando o atual governo do Estado de São Paulo decidiu promulgar um decreto alterando a estrutura das universidades públicas estaduais, gerou a possibilidade da crise que agora vivenciamos. Tal medida não constava do programa de governo apresentado pelo candidato a governador, nem foi levantada em sua campanha eleitoral. Por isso surpreendeu a comunidade uspiana, inclusive aqueles que nele votaram.
Para utilizar uma expressão popular, foi uma medida "tirada do bolso do colete", incidindo em uma área da administração pública estadual que, comparativamente, não apresentava grandes problemas. Ao contrário, a USP permanecia com a sua produção acadêmica de qualidade e estava expandindo vagas.
Cabe assinalar que, para uma proposta que visava "aprimorar" o sistema universitário paulista, a medida continha grandes lacunas e imprecisões, como ficou bem demonstrado nas alterações posteriormente realizadas pelo próprio governo estadual, e nas dúvidas que persistem sobre suas atribuições até o momento.
Em face ao quadro descrito, e dada a omissão dos dirigentes da USP que não se manifestaram quando da publicação do decreto, instalou-se um clima de insatisfação na comunidade uspiana. Tal terreno possibilita atitudes radicais e mesmo impróprias, como a invasão do prédio da reitoria por um grupo minoritário, que se manifestou como "vanguarda" política no processo.
Sem dúvida, essa ação desencadeou o debate que agora se trava, porém a atual situação de impasse, que persiste, é altamente lesiva à instituição. As atividades-fim de ensino, pesquisa e extensão são prejudicadas, e municia-se os interesses contrários à universidade pública com argumentos falaciosos, que passam à sociedade uma visão distorcida da vida universitária.
Órgãos de imprensa inescrupulosos fartam-se nessa situação, apresentando os docentes como uma corporação privilegiada e os alunos como rebeldes irresponsáveis. Esta visão deturpada e intencionalmente dirigida para a destruição de um bem público não releva os enormes serviços prestados pela USP ao longo de sua existência. Todo o sistema universitário brasileiro lhe tem como matriz geradora de quadros especializados e como referência institucional.
A pesquisa de excelência ali praticada, responsável por quantidade considerável da produção humanística e científica nacional, se expressa desde a geração de patentes de remédios de suma importância para a saúde humana até a elaboração de interpretações básicas para o entendimento de nossa história, desde o desenvolvimento de tecnologias vitais para o país até a reflexão sobre posicionamentos que aprimoram a nossa sociabilidade.
Além disso, cotidianamente, a universidade presta diversificados serviços à população, seja no campo do atendimento médico, da elaboração de laudos técnicos, de difusão da cultura, entre outros. Enfim, seria longa a lista dos benefícios que a universidade cria para a sociedade que a mantém. Pequeno é o seu custo em comparação com outras aplicações dos recursos públicos.Por essa tradição já consolidada, a Universidade de São Paulo não pode ser colocada na "bacia das almas" do jogo de interesses mercantis, partidários ou político-eleitorais. A sociedade paulista tem de defender este seu patrimônio, lutando pela manutenção de sua autonomia, de sua independência administrativa e de pensamento. O que não significa falta de transparência na prestação de contas (como parece sugerir o discurso governamental).
ANTONIO CARLOS ROBERT MORAES é professor-titular do Departamento de Geografia da FFLCH, foi secretário da Adusp e representante dos professores-assistentes e dos professores-doutores no Conselho Universitário da USP